Uma carta de amor

Querida Alice,

somos inseparáveis, eu e você. Nos passeios pelo jardim, para ouvir os passarinhos, economizo barulho e piso manso, para que você possa estender a escuta até onde a vista não alcança. Também nos aproximamos das flores, dos cheiros que nos aprazem, das frutas mais baixas no pé e saltitamos nos pisos de pedras. Brincamos juntas de cantos, fantasias, cataventos, chocalhos, desenhos, fantoches e sempre cabe mais um em nossas brincadeiras. O que você decidir, estou junto. Arrisco pensar que lhe encorajo.

Não somos nada reservadas, eu e você, reconheço. Nossa presença é rapidamente notada, talvez porque não seja assim tão comum viver uma parceria como a nossa. E somos mesmo atrevidas! Já nos enfiamos em estrada de terra, em areia do mar, em avião, em metrô, em ônibus, em parque de diversões, em teatro, em cinema e até em charrete! Sempre juntas, não há lugar que não seja para nós. Ou, pelo menos, não deveria haver. Nossa chegada na escola ainda desperta curiosidade. Como uma princesa em sua carruagem, você vai adentrando os ambientes, senhorinha de si. Eu fico ali, junto, debitando dúvidas, enquanto sua simpatia triunfa. Acho que experimentamos a liberdade.

Nas consultas médicas, testemunho, silenciosa, avaliações e vereditos, e raramente acredito no que ouço. É um pacto nosso: somos cúmplices de nossas realizações e nelas depositamos toda a nossa confiança. Não damos importância às adivinhações em torno do futuro, porque nosso encontro é confirmado nas possibilidades do hoje. Diariamente. Gente menos comprometida com nossa verdade pode tentar explicar nossa vida em não e pena. Mas o chão que nós trilhamos é inventado no entusiasmo de sermos, nós duas, do jeito que somos. Desavergonhadamente. Acredito que desbravamos caminhos.

Nunca deixo o vento lhe correr as costas e amorteço as pedras no caminho para que você siga firme. Envolvo seu corpo com grande responsabilidade, como guardiã de seu mistério. Crescemos juntas, estou sempre disposta a ser sua companheira a cada nova fase, se você também o quiser. Eu zelo por seus cochilos à tarde e não guardo segredo de seus hábitos alimentares. Já percebeu como tem sempre um pedaço de banana naquela minha bolsa? Quando você chora, meu colo é capaz de te acalmar. Passeamos juntas, revisitamos céus e ares, e balançamos levemente o incômodo, até que ele deserte do posto. Então, se uma brisa suave nos encontra de frente, sei que soprará, também, um sorriso em seu rosto. Acho que lhe afago.

Juntas, somos imbatíveis. Damos de ombros às portas fechadas, às proibições, às negativas, às impossibilidades. A desobediência, no nosso caso, é uma virtude que lapidamos todo dia. Você imagina, eu lhe apoio. Você ousa, eu faço acontecer. Você cansa, eu lhe acolho. Você ri, eu me realizo. Bagunçamos as certezas de muita gente com nossa alegria. Nossa cumplicidade é tão potente, que redefinimos o que poderia ser uma dor por gratidão. Não sei se nossa convivência seguirá intensa pelos anos afora. Talvez sim. Talvez não, talvez sigamos caminhos diferentes. Mas sei que tudo o que vivemos juntas será memorável, porque é bonito. Bo-ni-to. Nunca nos esqueçamos disso.

Com amor,

sua Cadeira de Rodas.

amarelinha

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