Outras palavras

De férias, admirávamos o cair da tarde aquarelado pelo inverno, quando um simpático garotinho se aproximou. Vinha se apresentar e convidar Alice para brincar de pique-esconde. Sorri em acolhida, enquanto a pequena piscava comprido, atendendo a outro convite que chegara primeiro. O menino ficou por ali, observando, como quem quisesse garantir qualquer chance de companhia. Enquanto apurava o olhar, engatou a conversa.
– Ela não fala?
Respondo negativamente, mas disponível a continuar a conversa, na medida de seu interesse.
– Por quê?
– Porque ela ainda não aprendeu…
Ele se deu por satisfeito. Pelo menos naquele momento. Dia seguinte, lá vem ele inaugurando manhã e alegria.
– Oi! Ela já aprendeu a falar hoje?
Novamente digo que não.
– Vai demorar para ela aprender?
Como se mostra tão interessado pelas pessoas a sua volta, percebo o quanto a fala é importante para ele. É o instrumento de sua curiosidade.
– Não sei se vai demorar. Pode ser que aprenda logo, pode ser que nunca aprenda.
– Mas por quê?
Ele insiste, entre entusiasmado e inconformado, com a interrogação lhe escapando entre os dentes.
– Porque este é o jeito dela. Algumas pessoas não falam, outras não andam, outras não ouvem, outras usam óculos, outras são ruivas…
– Ah! Entendi. Um dia eu conheci uma pessoa que não tinha braços, nem pernas.
Confirmo com um sorriso a compreensão que ele vai revelando. Então, ele arremata:
– E meu pai é adestrador de cães.

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