Um sítio chamado família

Minha irmã assopra a agulha delicadamente para, em seguida, posicioná-la na primeira caixa do disco. Rodopios e chiados saem da vitrola. Repassamos todos aqueles LPs antigos, alguns muito familiares, como quem tira as memórias do arquivo. É nossa história ali, sob a capa da poeira.

Havíamos viajado alguns quilômetros para nos acharmos naquelas lembranças. Um convite para uns dias no mato, aninhados entre galinhas, vacas, verdes e estrelas. Desconectados do wi-fi, da dureza do cotidiano, para poder observar o tempo que se apresenta pelas sombras que o sol rabisca no chão. Lá onde depois de nada fazer, a gente descansa. Lá onde o ócio não é vicio, nem vergonha, é conexão e merecimento. Lá onde a gente, esquecido do redemoinho que nos engole, desiste de sofrer. Onde a comida se faz em fogo brando, o cinto de segurança do carro é quase dispensável, as casas são chamadas pelo nome do morador e não pelo número.

Onde se ouve a melodia das folhas e a gentileza das borboletas. Onde os chapéus reverenciam qualquer traço humano que lhes cruze o caminho. Lá onde se sacia a fome de pão e se aguça a da beleza. Onde tudo vive sob a fina poeira da terra, do tempo, da memória.

Tão fina que basta um sopro para perceber tudo viçoso, vivo, atual. Mesmo a capa desbotada do LP, mesmo o relógio de ponteiro que já não se lembra de marcar as horas, mesmo as cortinas puídas, tudo permanece intacto, pelo verniz do afeto. Lá onde chegamos com a corda do impossível esticada até não mais poder, e tudo é cura e reparação. Tudo remoça em nós. Lá onde nada é decadente. Toda a singeleza ascende a um patamar superior de importância, tudo acende o que é humano na gente. Lá onde a existência deserta da razão e penetra pelos poros, onde o convívio é uma experiência sinestésica. Lá onde o afeto renuncia ao luxo da palavra para não correr risco de ficar obsoleto. Lá que é mais que um lugar, é um estar em família, aonde sempre se pode retornar.

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