Dor do parto

A mexida em meu ventre foi intensa. Era preciso tirar a menina de sua morada, arriscado continuar ali. Anestesiaram meu corpo, mas a apreensão dava voltas na sala do hospital. Por mais cuidadoso que fosse o gestual da obstetra – e foi -, eu me sentia tomada em assalto, em assombro. Num tranco, o bebê foi puxado. Chorou tudo o que podia. Era brando e misterioso seu anúncio, feito chuva que precede tempestade. A tensão parecia manter suspenso o suspiro da equipe médica por alguns segundos. Tentavam colocar o tubo que auxiliaria a menina a respirar pelos próximos sessenta dias, mas o menor calibre ainda era inapropriado para aquele diminuto corpo. Minha escuta acompanhou as tentativas, buscou lamúria, mas só o silêncio me cochichava aos ouvidos. Um silêncio veloz e espaçoso. Subitamente, um par de mãos segurou mínima porção diante de meus olhos. Cheirei fundo, querendo trazê-la de volta para dentro de mim. Pisquei, e ela sumiu.

Meu corpo aberto, oco, meus braços, órfãos, meu rosto, náufrago. Fiquei em remendo e tempo. A obstetra a segurar minha placenta, como quem prolonga o momento para caber alguma alegria. Nasceu, afinal. Ela sutura o rasgo em respeito e afago. Ainda assim, dói. Ainda hoje, dói.

Dali por diante, segui o dia tentando costurar aquela fissura no tempo que me apartou de minha menina. De mãe, fui alçada à condição de visitante e, no lugar que ela agora habitava, eu só poderia estar em horário e duração previamente definidos por outrem. Já não sou abrigo, sou risco.

A recomendação era aguardar o dia seguinte, quando meu corpo talvez estivesse menos ressentido da cirurgia. Marido, irmã, amiga testemunharam a miudeza. Lágrimas temperadas de alegria e susto anteciparam o mar que me tomaria no colo por meses. Enquanto isso, o desejo do encontro tomava posse do agora. Era tão pujante, que não deu alternativas. Três mulheres me levantaram. Um tripé que me sustentou, trôpega, sob o chuveiro. Lavaram todo o temor e abriram caminho para a necessidade límpida e poderosa de juntar de novo mãe e filha. O substantivo que firmaria meus pés no chão era mesmo feminino: coragem, elas diziam.

Ali, já de frente para a incubadora, precisei me amiudar para encontrar seus olhos. De joelhos, testemunhei a vida se revelando feito prece sussurrada. Medi pouco mais de um palmo, sem que me fosse possível estrear o tato em sua pele delicada. Escorei nossas frágeis existências em minha voz: minha filha. Minha filha, eu disse. E, ao fazê-lo, percebi que também anunciava uma longa espera. Pari uma menina e fiquei grávida de esperança.

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2 respostas para Dor do parto

  1. Lima Mara disse:

    Não tive como conter as lágrimas…me revi ali, ao lado não de uma mas de duas incubadoras, com dois pequeninos de 25 semanas…Já se passaram 3 anos, daqui a pouco 4 e eles pela misericórdia divina estão aqui…mas ainda dói. E como dói.

    Curtir

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