Descompasso

Ao abrir a janela, o azul inteiriço inaugurou minhas retinas fatigadas. Era tanto céu que eu quis ter esperança. Era tão claro, que desdobrei o corpo e me pus de pé. Coloquei as incertezas para quarar e deixei-me conduzir pelo enredo do dia. De certa forma, vou me tornando especialista em recomeços. Confio na impermanência, na transitoriedade, no pulsar que guia o ritmo e o fôlego. Expansão e recolhimento. Alegria e sufoco. A agonia que hoje não tem resposta, talvez amanhã, logo ali, em seguida, já seja passado de solução. Sigo maturando tristezas. Faz frio do lado de dentro. É úmido também. Mas a paisagem de fora – esses azuis-e-verdes-e-dourados desavergonhadamente intensos – tem feito o inverno parecer mais rigoroso peito adentro. Um desencontro que não é desacato, desaforo, posto que a assimetria é adubo da humildade. Talvez o capricho dissonante da natureza esteja a me lembrar que a vida não começa nem acaba em mim. Só me atravessa. E, às vezes, me dói.

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