A mãe possível

Foi no aeroporto. Enquanto caminhava em direção ao portão de embarque, observava as pessoas, seus gestos, suas escolhas, suas esperas. Eram pernas, luzes e avisos. Muita pressa em um sábado de manhã. Até que meus olhos pousaram em uma mulher. Uma bela mulher envolta em um tecido colorido e, entre camadas de pele e pano, estava uma bebê – sua filha. Nas costas, uma mochila discreta, pequena. Ela balançava o corpo de um lado para o outro. Percebi a filha colada em seu peito, sugando leite, enquanto ouvia a mãe solfejar alguns versos. Parecia tranquilo e seguro aquele ninho. Era segura e poderosa aquela mãe. Viajavam apenas ela, a filha e a mochila. Havia muito a envolvê-las – conforto, afeto, serenidade, algum cansaço, liberdade, satisfação, alegria, coragem… e havia tão pouca bagagem!

A cena ficou assim, tatuada em minhas retinas nas horas seguintes. De princípio, admirei profundamente o que vi. A beleza deu nome à situação. Depois, reconheci-me tomada de assombro. Refiz a cena, modificando as protagonistas. Fôssemos eu e Alice, constatei, o contexto seria radicalmente distinto. Estaríamos com uma bala de oxigênio, uma caixa térmica com toda a alimentação decorrente da dieta cetogênica previamente preparada, pesada e embalada, inclusive alguns itens extras para o caso de alguma eventualidade, garrafas com água espessada, o copo específico para a bebida, os medicamentos anti-convulsivantes, o saturímetro. Minha mochila não seria pequena, tampouco discreta. Minha filha não seria alimentada em meu peito. Ao contrário, haveria inúmeras intermediações para fazê-la nutrida, segura e saudável durante aquele vôo.

As experiências distintas da maternidade me chacoalharam. Tão habituada e íntima dos cuidados com minha pequena que estou, vi-me absorver outra realidade possível. E é estranho pensar isso quando o que me atravessou está mais perto de ser regra do que exceção. É que a realidade da gente é a regra da gente. No convívio com o outro, com o diferente, é que percebemos as inúmeras nuances de cada experiência. E ali, para mim, a diferente era ela. Transitando entre lá e cá, imaginei que deve ser assim, com o espanto que observei essa mãe e sua filha, que outras mães observam a experiência da minha maternidade também.

Não há comparação possível. Seria raso e leviano pressupor que a maternidade experimentada por aquela mulher é mais fácil ou mais leve que a minha, ou que sou uma mãe mais calejada do que ela. Não é nada disso. Somos mães, ambas. Foi a partir desse ponto comum que eu a admirei. Admirei o quanto ela era o bastante para sua filha. Admirei sua suficiência, naquela postura altiva, naquela mochila corajosamente pequena, naqueles braços onde cabia o necessário e transbordava o essencial. De tanto admirá-la, não pude baixar os olhos para a minha experiência. Não pude me ressentir de não ser aquela mãe. Eu sou a mãe que carrega tudo o que a cria precisa fora do corpo, porque ele não é suficiente para ela. Nunca foi. Carrego a bala de oxigênio, a comida, a bebida, o saturímetro, os remédios. Carrego tudo o que preciso for porque sou exatamente como aquela mãe. Eu e ela cuidamos amorosamente de nossas filhas. Eu e ela garantimos o que nossa cria precisa para se desenvolver. Eu e ela experimentamos a maternidade de peito aberto. Nossas experiências tão singulares rimam em afeto e entrega, enquanto solfejamos aos ouvidos de nossas pequenas. Eu e ela somos mães, as possíveis.

alice.jpg

Anúncios
Esse post foi publicado em Posts e marcado , , , , . Guardar link permanente.

34 respostas para A mãe possível

  1. Claudionaldo Câmara disse:

    Ual! Parabéns! Belíssimo texto.

    Curtir

  2. KAMILA CLARA disse:

    Belíssimo texto!

    Curtir

  3. Ana Virgínia disse:

    Maravilha de texto. Que bênção!! Luz pra vocês!!

    Curtir

  4. Nanny disse:

    Belíssimo texto…mãe de três filhos e sou a mãe possível!

    Curtir

  5. Adenísia disse:

    Uau, que texto. Fiquei emocionada. bjs

    Curtir

  6. Lucia Ramos disse:

    Que texto emocionante! Me pus também no seu ougas em um outro contexto. Perdi uma filha de 27 anos, de repente. E aí me coloquei na sua posição de ser uma mãe possível que perdeu uma filha! Sou também está possível mãe.

    Curtir

  7. renata Moura disse:

    Puro, simples, lindo!!!! #somosmaes

    Curtir

  8. Márcia Geralda Rocha disse:

    Muito lindo. Emocionante!!!

    Curtir

  9. Noelia Leite disse:

    Olá, Mariana!
    Primeiro quero te parabenizar pelo texto profundo e sensível. Desenvolvo um trabalho de atenção, cuidado e educação com mães de crianças com deficiências. Queria saber se você autoriza usar o seu texto, com os créditos devidos, nesse trabalho.
    Abraço,

    Noelia

    Curtir

  10. Valéria disse:

    Que texto lindo, amoroso, envolvente… Amei sua palavras, seu sentimento, sua interpretação… “É que a realidade da gente é a regra da gente. No convívio com o outro, com o diferente, é que percebemos as inúmeras nuances de cada experiência. E ali, para mim, a diferente era ela”.

    Curtir

  11. Adriany disse:

    Nossa q maravilha esse texto!

    Curtir

  12. Santina Cipolletta disse:

    Texto leve mas muito profundo.

    Curtir

  13. Conceição Maria Machado disse:

    Nossa! Quanta doçura, beleza, força e determinação nesse texto! Chorei!!! Parabéns e muitas bençãos para vocês duas!

    Curtir

  14. desabafos.da.mammy disse:

    Os meus parabéns pelo seu texto, pela forma tocante com que o escreveu! Desejo-vos tudo de bom!

    Curtir

  15. Silvia Cristina Santos de Lima Rezende disse:

    Que texto lindo e marcante!!! É isso mesmo, e que nunca nos esqueçamos de que somos todas mães e as experiências de todas nós são únicas e válidas! Parabéns pela lucidez e capacidade incrível de expor os sentimentos em palavras

    Curtir

  16. Kamile Guariento disse:

    Lindo texto! Somos as mães que conseguimos ser.

    Curtir

  17. Yara Maia disse:

    Que lindo! Tão real! Tão honesto! Tão mãe!
    Que Deus continue te dando essa sensibilidade e essa honestidade nas palavras, nos gestos e nas suas ações.
    Obrigada por dividir com a gente sua experiência. Obrigada pela chance de nos fazer enxergar melhor a nossa maternidade. Somos diferentes umas das outras, e ao mesmo tempo somos iguais quando queremos o melhor para nossos filhos!

    Deus abençoe e guarde sempre você, Alice e toda sua família!

    Curtir

  18. Sandra Godinho disse:

    Ser mãe…
    De todas as formas e maneiras possíveis…
    Que generosidade a sua…
    Aceitação…
    Mas nunca deixar de lutar e fazer tudo ao seu alcance para o conforto e crescimento de sua pequena!
    Amei seu texto! Amei vc! E sua Linda Alice!
    ❤💕❤💕❤💕

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s