A menina da lanterna

Primeira festa de escola da pequena Alice: “A menina da lanterna”. Nunca tinha ouvido falar nisso, não. Um nome sugestivo! Menina… lanterna… luz. A reunião prévia com as famílias tratou de nos envolver – mente e coração – com o desenrolar da estória. Até a celebração, deveríamos fazer uma lanterna junto com nossos filhos. O material era simples, caixa de suco, papel vegetal, outros papéis diversos, vela. Simples. Já o fazer revelou-se laborioso. Há que cuidar da segurança da chama dentro da caixa de suco. Há que atentar para as janelas para a luz. Há que se esmerar, sem pressa, no recorte das estrelinhas miúdas que serviriam de adorno. Há que conversar sobre persistência, recolhimento, encantamento. De repente, tínhamos diante de nós uma caixinha feita de afeto. Uma caixinha grávida de luz.

alice

No dia da festa da menina da lanterna, fomos para a escola no cair da tarde. Entre os tantos apetrechos para lidar com o frio e com as necessidades da filhota, a lanterna foi envolta na mais preciosa cautela. Afinal, era uma lanterna-gestante. Assentamo-nos todos de frente para o palco – um barranco cheio de árvores e bambus, que nos convida a olhar para cima, quase para o céu. Quando a noite caiu, os familiares compuseram a cena para contar a estória da menina que sai à procura de uma forma de acender de novo sua lanterna. De uma menina que cumpre sua jornada com coragem em busca da luz. Uma menina que brilha por onde passa, acende, aquece, compartilha. Ao final da estória, as lanternas de todas as crianças foram acesas. Materializou-se o óbvio que cotidianamente nos escapa: cada criança, um facho de luz. Nascemos de novo ali.

Luz, roda, canto, calor, abraço, brilho. Uma alegria calma que toma conta da gente porque dali somos parte. Ali, naquele escuro que tanto revela sobre nós, Alice brilha como todas as outras crianças. Igual a todas, diferente como cada uma. Ali, somos mãe e pai como os tantos outros. Iguais no afeto pelos filhos. Diferentes na experiência do cuidar único de cada um daqueles pequenos e pequenas. O mundo pode ser bom, pode ser delicado, pode ser gentil se as crianças puderem acender suas lanternas. O mundo pode ser, sobretudo, maravilhoso, quando se tem a sorte, como eu tenho, de ter uma lanterna que é a própria menina. Alice.

lanterna

Foto: Carlos de Brito e Mello

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