Cérebro enferrujado

No consultório do pediatra, aguardamos atendimento.

Dois meninos rodeiam Alice e sua cadeira enquanto também esperam.

– O que ela tem? – perguntou-me um deles, percorrendo os olhos atentos sobre nós.
– O que você acha que ela tem? – retorno a pergunta, buscando dosar a informação na medida da necessidade do pequeno e curioso interlocutor.
– Ela não anda?
– Não.
– Por que?
– Ela ainda não aprendeu a andar com as próprias pernas. Mas anda pra todo lado com essa cadeira.

Ele faz breve pausa, inspeciona a cadeira. Retoma:

– E ela não fala?
– Não fala palavras.
– Por que?
– Também não aprendeu ainda. Mas ela se comunica com…

Não há chance terminar a explicação. O desejo de compreender lhe toma o fôlego e ele reitera, incrédulo e insatisfeito:
– Mas por que? Por que?
– Ela tem paralisia cerebral. Já ouviu falar?

Ele balança a cabeça negativamente, os olhos ainda mais curiosos.

– É algo que acontece no cérebro.

Ele percorre a mão sobre a própria cabeça, finca forte o dedo, apontando para o topo e diz
– Laaaaaaa dentro?
– Isso!
– Ah, entendi… o cérebro dela é tipo… enferrujado?

ferrugem

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