A escola, um novo aprendizado

Das resoluções que nos projetam, esperança e espanto, ao próximo ano: Alice foi matriculada na escola. Foram seis negativas até encontrar o lugar que a acolheria em sua singularidade. Senti por todas as escolas que nos fecharam as portas. Menos pelo que não pude ver para além da sala de paredes e discursos homogêneos; mais, muito mais, pelo que revelam do mundo em que vivemos. Como é possível aprender a respeitar, tolerar e admirar as diferenças se nos é negado, nos diversos espaços, a oportunidade de conviver em nossa diversidade? Como é possível que uma escola rejeite uma criança por suas características físicas e isso não resultar em indignação de todas as famílias cujos filhos lá estudam? Como é possível não temer por minha filha, por todas as crianças, pelas escolas, pelo mundo em que vivemos?

Uma porta se abriu, competência e empatia foram anfitriãs. Resgatei a esfarrapada esperança. De mãos dadas com ela, visitei a escola três vezes, conheci outras famílias, conversei com a orientadora pedagógica, colhi percepções diversas. Há, sim, uma inadequação do espaço físico para uma menina cadeirante que ousa inaugurar o espaço sob essa perspectiva. Mas as primeiras impressões parecem dar conta de que não há barreiras para a acolhida, o respeito e o aprendizado com o diferente. “Nossa escola tem muito a ganhar com a vinda de sua filha”, disse-me a orientadora.   Concluí, por consequência, que Alice também terá muitos ganhos com a vida escolar neste lugar.

Hoje, quando retornei à escola para efetivar a matrícula, perguntei ao secretário quando as aulas seriam iniciadas, pois que seriam necessários alguns encontros prévios entre a orientadora pedagógica, a professora e a equipe de habilitação da Alice (fisioterapeuta, fonoaudióloga, terapeuta ocupacional). Ele respondeu, sem titubear, que avisaria à orientadora sobre essa necessidade. Não raspou a garganta. Não gaguejou. Não disse que checaria e me ligaria depois. Não hesitou. Agiu com a naturalidade que tem efeito tranquilizante sobre o coração. Foi bonito, sabe.

Hoje, também me matriculei na escola. O percurso escolar de minha filha será, para mim, uma chance para educar medos, lapidar alegrias e florescer outros tantos aprendizados. Que Alice saiba conquistar espaço e afeto exatamente como é. Que as diferenças aproximem e as semelhanças enlacem o cotidiano de todas as crianças que ali conviverão. E que os professores saibam fazer desta experiência a semeadura de um outro mundo possível.

escola

Futura sala de aula da Alice

Anúncios
Esse post foi publicado em Posts e marcado , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s