O menino, o velho e o tempo 

Dia do lançamento do livro “Diário da mãe da Alice”. Formou-se uma fila para os encontros e os abraços, muito mais do que para os autógrafos. Um menino se aproxima, equilibra o corpo esguio sobre as pontas do pés, eleva a cabeça e indaga com indignação: – você vai ficar a noite inteira fazendo isso? Coitada! 

Referia-se a minha escrita na primeira página do livro, dedicada a cada sorriso que encontrei naquela ocasião. O menino tem urgência do brincar, do explorar o espaço, do questionar as pessoas. Na inquietude do seu viver e descobrir, passar uma noite dedicando livros não mobiliza seu interesse. Antes, quer aprender os nomes das árvores, quer saber por que os pingos da chuva caíram naquela direção. Quer experimentar o sabor nunca visto. 

Sua observação espontânea me remete à matéria da qual é feito o livro em questão: descobertas. A publicação media nosso diálogo sobre o mesmo tema, vivido sob perspectivas e momentos diferentes. Eu sou aquele menino. 

Pouco depois, é um senhor idoso que se aproxima. Estende-me as mãos trêmulas e me acessa pela voz rouca e abafada. 

– a fila está tão grande que já li metade do seu livro enquanto esperava. Agora que chegou minha vez estou pensando em voltar para lá atrás para ler a outra metade! 

Rimos, cúmplices dos prazeres do tempo. Aquele senhor franzino, curvado, valsa sem pressa com as miudezas que o desafiam. Com ternura e bom humor, vai remediando a idade e preservando o frescor do espírito. Eu sou também esse velho aprendendo sobre o deleite da espera. 
O menino e o velho não tem tempo a perder. Buscam, de maneira muito própria, solucionar essa equação que parece que nos subtrai as horas, de maneira a transformá-la em soma. Lembram-me do significado único das vivências para cada um. E reafirmam a utopia de que o livro que nos uniu naquela noite possa ser folheado por um novo tempo. O tempo do respeito e da admiração pela singularidade humana.  
(Foto: Giselle Ventura)

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6 respostas para O menino, o velho e o tempo 

  1. Lindo..Estou sem palavras para espor um simples comentário diante de tanto amor e simplicidade na vida no que é imposta.E a melhor forma de vencer é crer e acreditar que tudo é possível. Não vejo a hora de ler essa história linda de amor de mãe…

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  2. Luciana Thomsen disse:

    Estou ansiosa pela chegada do meu livro! Acredito que já tenha lido todos os textos, mas ter o “Diário da mãe da Alice” na cabeceira da minha cama será maravilhoso!

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  3. Elaine Costa disse:

    Meu bebê tbm tinha síndrome de west está hoje com epilepsia multifocal.
    Gostaria de comprar o livro onde posso compra-lo pois não achei nos sites de livraria.

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