Colo de avô

Ele entrou em casa pisando leve e curioso, como faz pelas manhãs. Trouxe consigo o frescor da alvorada e reverenciou o encontro com filha e neta com um sorriso. O pensamento, mesmo aos primeiros raios de Sol, parece acelerar em direção aos afazeres. Cabe ao sentimento pavimentar a meia volta e ditar a prioridade.
– Vim ver minha neta.
Alice, então, é fisgada pela voz rouca e doce do avô. Para ele, direciona o olhar, os braços, a súplica por colo. Esclarece, aos bocejos e com os olhos miúdos, que a noite não lhe foi gentil. Dente rasgando, respiração ruidosa e insuficiente. Dormir dói, por isso reluta.
O avô a toma nos braços. Enverga a coluna já calejada para acomodar a ternura sobre seu peito. Cantarola e assovia uma cancioneta italiana, evocando, também, sua mãe na urgente tarefa do acalanto.
A neta suspira, descansa os olhos, entrega a cabeça ao ombro macio do avô.
Ele flutua até o quarto, onde a acomoda no leito da delicadeza. Alivia a coluna e raspa a garganta.
– Essa canção italiana não falha.
Munido do afeto que nos autoriza a labutar o dia, engole o café e vai porta afora.
foto-vovo

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