Feito é melhor que perfeito

Feito ou perfeito?

Ambos os conceitos disputam a interpretação do gesto motor de minha filha Alice. Sintonizar intenção e movimento é tarefa que lhe consome grande energia. Para realizá-la, sua vitalidade trava batalha com a dificuldade. Alheia à rima fácil, Alice empunha o próprio desejo e vai desbravando caminhos inexistentes que lhe possibilitem interagir com o mundo. Seu cérebro é, paradoxal e simultaneamente, opositor e mentor: mostra barreiras que inviabilizam conexões e conduzem ao abismo, mas também é fiel aliado das possibilidades, dos despropósitos e dos recomeços.  Alice tem aprendido todos os dias a tirar partido da segunda condição.

Nessa trajetória, a busca pelo encontro é conforto e conquista. Quando convidada ao movimento, Alice coloca os sentidos à serviço da curiosidade. Quieta, busca ouvir, ver, perceber para se familiarizar com a novidade que se apresenta. No instante seguinte, ensaia alternativas. Joga o corpo, testa os braços, aumenta o tônus, gira a cabeça, recruta tudo o que sabe e também o que quer aprender. A expectativa lhe toma o fôlego. Minutos depois, respiração apressada, finalmente descobre uma via de acesso. Com o corpo um pouco torto, os membros enrijecidos, muitas vezes desalinhados, experimenta com fartura a alegria do encontro possível. Ela celebra a conquista, eu comemoro a busca. Ela faz do desejo o motor da descoberta, eu faço da sua alegria o meu propósito.

Fosse meu olhar menos comprometido com a felicidade de minha filha, é provável que julgasse seu movimento impreciso, inadequado, feio até. Falta alinhamento, falta coordenação, falta controle. Mas o amor nos conecta às somas, muito mais do que às subtrações. Alice esbanja vontade e, por isso mesmo, trans-borda, excede as próprias limitações. Elas ficam ali, moldura de um desejo pujante, pulsante de experimentar riscos e consequências. O que salta aos meus olhos é uma menina interessada e ativa, comprometida com sua realização muito mais do que por sua condição. Não empreende seu esforço na superação de nada. Sem pressa, mas decidida, direciona-se rumo àquilo que lhe apraz como único objetivo. Ela sabe, há tempos, que feito é melhor que perfeito. Agora, minha remissão, eu também sei. Seus feitos, o ninho da beleza.

Clique aqui para ver um pouquinho das descobertas da Alice.

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