Antecipação

Uma tomada de fôlego, lá estava eu. Um som diferente, eu de novo. Uma quietude excessiva, vou checar. Até pouco tempo atrás, todas as características e movimentos da Alice eram permanentemente observados por mim. Dia e noite, olhar em vigília. Por um lado, era o medo que fechava o cerco. A herança dos primeiros meses de vida em sobressalto na UTI Neonatal me autorizava a desconfiar de cada minuto, como se vivêssemos na permanente iminência do pior. Por outro lado, a culpa me obrigava à exaustiva antecipação. Era como se eu tivesse que suprir qualquer necessidade de minha filha antes mesmo que ela a manifestasse. Minhas providências incessantes e, por vezes, invasivas, eram demonstração de afeto e cuidado, mas eram também reiterados pedidos de perdão. Antecipar as necessidades da Alice era protegê-la de tudo aquilo de que eu não tinha sido capaz até então.
 
Nesse ambiente, ela, que é uma criança não-verbal e com importantes limitações motoras, deixou de ter desafio ou estímulo para buscar maneiras de comunicar suas necessidades. E eu, por mais que fizesse, sempre me achava em dívida. Em algum momento, isso deixou de fazer sentido. Lembrei-me das tantas vezes em que ela foi objeto de intrusão, nos tempos de hospital. De hora em hora, coleta de sangue, ajuste na sonda de alimentação, mudança na posição do tubo, troca de fralda, exames clínicos… um protocolo infindável que garantiu sua sobrevivência, mas também registrou perturbação em sua memória. Inconscientemente, eu repetia o gesto. A verdade é que a demanda pela atitude onipresente era minha, não dela.
 
Autorizei-me a mudar de estratégia. Dentre outras iniciativas, Alice passou a dormir em seu quarto, sozinha. Se acordasse à noite, mesmo com a sinalização da babá eletrônica ao lado da cama, eu me detinha e esperava por um sinal. Um barulho, um chamado, um movimento qualquer. Ela começou batendo a perna na lateral da cama. Depois aprendeu a mudar de posição sozinha. Por último, reverberou seu chamado em sons de diferentes intensidades e timbres. Diversificou estratégias dia após dia para comunicar sua necessidade que, só então, passou a ser atendida. Afinal, “o sapo pula por precisão, não por boniteza”, alerta Guimarães Rosa. Como foi que me esqueci disso?
 
Assumir que o desenvolvimento de minha filha estava sendo tolhido não por sua condição, mas pelas minhas limitações emocionais foi um processo demorado e intenso. Mas também foi bonito. Foi ela quem me ensinou a justa medida entre a proteção que aprisiona e o cuidado que dá segurança para que ela se arrisque. Desde então, seguimos nos arriscando juntas nessa empreitada que é aprender a viver.

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