Doença sem sobressalto

Os olhos pesados. O hálito úmido, impregnado. As narinas dilatadas. O peito inquieto. Sintomas que interromperam uma contagem prodigiosa do tempo. Alice adoeceu.
Clima seco que trouxe virose. Virose que trouxe secreção. Secreção que foi se alojar nos pulmões. Pneumonia. Os cuidados necessários estão em prontidão na bala de oxigênio, no saturímetro, no aparelho de massagem, nos medicamentos e, sobretudo, na memória. Aliás, é justo aí, na memória, que mora o conforto.
 
Alice já teve incontáveis pneumonias. Só no primeiro ano de vida, foram seis! De início, a recorrência era motivada pela aspiração, uma vez que minha pequena tem disfagia (uma dificuldade em coordenar adequadamente respiração e deglutição). Depois, pela própria fragilidade dos pulmões. O aprendizado foi se acumulando, ela foi se fortalecendo e as intercorrências, espaçando. Um processo penoso, mas que nos capacitou para tempos difíceis. Hoje sei.
 
Aprendemos a observar a consistência da água, a hidratar pele e umidificar ambiente, a manter quarto arejado, a usar máscaras e evitar contato quando um espirro toma a dianteira. Conhecemos o chiado, o odor, o esforço pra respirar. Uma rotina que se fez familiar e, como tal, já não mais assusta quando se anuncia. Apenas antecipa, prepara e reafirma a certeza de que tudo passará.
 
A experiência acumulada nos encoraja na justa medida. O tanto que nos responsabiliza pelas providências com confiança para manter Alice em casa, com toda a parafernália, mas longe da internação. Outro tanto que nos coloca em vigília, conferindo sinais, acionando profissionais e especialistas para minimizar possíveis riscos. Sinto alívio pelo privilégio de podermos oportunizar as condições para o tratamento. Privilégio que deveria ser direito garantido, e o fato de não sê-lo também causa sofrimento.
 
Mas aprendo que pode haver segurança na vivência da doença. Pode haver conforto. Pode haver confiança. Experimento tudo isso enquanto Alice está aninhada em meu colo, quente e entregue. Acaricio seus cabelos, beijo sua testa, embalo seu corpo, entre fios e aparelhos, distribuindo certeza serena. Ter a filha nos braços e poder cuidá-la é princípio de cura. É vínculo renovado com a vida.
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