Paralimpíadas – anunciação

Imagine querer participar de um evento e poder utilizar o transporte público para isso! Imagine querer assistir a uma competição esportiva e ter seu assento garantido! Imagine querer comprar uma bebida e conseguir falar diretamente com a vendedora! Imagine querer usar o banheiro e poder fazê-lo! Imagine querer se locomover de um lugar a outro e realizar o percurso sem desvios de rota? Se você não é uma pessoa com deficiência, tampouco convive com uma, talvez considere essas suposições tolas, visto que são situações absolutamente corriqueiras em seu dia a dia. Mas se sua condição, como a de minha filha, é oposta a essa, tais sugestões  podem parecer mais uma canção dos Beatles que a própria realidade. Imagine… Isso explica porque as Paralimpíadas se apresentaram, para nós, como uma utopia, uma esperança.  Eis a nossa experiência.

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Decidimos acessar o Parque Olímpico por meio do transporte público. Ônibus, metrô, ônibus de novo, e mais um. A partir da linha 4, criada especificamente para atender os Jogos, a acessibilidade ganhou lugar. Assim mesmo:  até ali, o mundo como ele é, excludente, cheio de barreiras. Cruzamos alguns metros, uma faixa dá as boas vindas aos Jogos Paralímpicos e anuncia as próximas cenas: elevadores, assentos para cadeirantes, rampas, orientação, segurança. Uma sensação indescritível de nos sabermos vivos, respeitados.

Entramos no Parque. Amplo a perder de vista. As diferenças todas ali, convivendo, experimentando-se, reconhecendo-se. Caminhamos sem que nenhum olhar nos cercasse de estranheza. Somos muitos, sem deixarmos de ser únicos. Nossa presença não se fez notar porque não está descontextualizada, dissonante, usufruindo de suposto caráter de exceção. Um ambiente pensado para transpor barreiras da acessibilidade naturaliza quaisquer que sejam as condições das pessoas que o frequentam. Solucionam-se as deficiências do espaço público ao invés de negligenciar as deficiências humanas. Pronto! Ao se fazer viável, possível a todos, a instalação se equipa de imbatível beleza. Há que se admirar quando ética e estética assumem, juntas, o trabalho duro.

A atmosfera é de alegria, de emoção, de gratidão. É com esse estado de espírito que acessamos uma das arenas. Um andar inteiro apenas para cadeirantes e seus acompanhantes In-tei-ri-nho! Acomodamo-nos confortavelmente para assistir às sucessivas provas de natação. Os atletas são convidados a assumir seus lugares em frente à piscina. Olho atentamente. Não há um corpo igual ao outro. A uns falta uma perna, a outros, um braço, há quem não tenha nenhum dos dois, há os cegos… No ponto de partida, são todos diferentes! A mesma competição, na Olimpíada, evidencia uma uniformidade de corpos. Todos idênticos, próximos à forma supostamente mais eficiente para vencer as provas. No ponto de partida, são todos iguais. Movimentam-se na água de maneira ensaiada, padronizada. A oportunidade de diferenciação se dá ao final da prova, pelas marcas obtidas. Já os atletas paralímpicos iniciam a competição a partir de suas diferenças, tiram partido delas, trabalham o corpo de maneira única, para se igualarem na linha de chegada pela travessia cumprida, muito mais do que pela marca obtida. A estrela da competição não é o indivíduo, é a individualidade, a capacidade de tirar proveito máximo da própria condição. Um feito que a plateia mais do que reconhece, celebra, eufórica.

Não é possível passar pelas Paralimpíadas impunemente. Nós nos sentimos mais gente! E por absoluto compromisso com nossa humanidade, mais esperançosos também! A constatação de que é possível viver em um mundo que respeita e valoriza as diferenças é um alívio, um alento, um fôlego. Mas depois que saímos da linha 4 do metrô, de volta à realidade, é preciso lidar com as perguntas: por que não hoje? Por que não já? Por que não em todo lugar? Resta o desejo latente de que o legado dos Jogos Paralímpicos seja o da busca permanente por esse ideal de mundo em que todos tem vez!

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