O homem invisível

Em quase 40 anos, é a primeira vez que me interesso pelos Jogos Paralímpicos! Primeira vez… Até hoje, o evento havia passado despercebido por mim, seja por falta de interesse, seja pela divulgação menos enfática da mídia. Constrange-me essa invisibilidade. Essa insensibilidade. Essa visão limitada de mundo. Afinal, as pessoas com deficiência são quase um terço da população brasileira. Busco razões, motivos, explicações, justificativas: uma saída que me redima dessa alienação. Quanto mais fundo cavo, mais enraizadas as respostas.

Nunca convivi cotidianamente com pessoas com deficiência. Lembro-me da rua de minha infância, de vizinhos amigos, de brincarmos todos juntos. Todos menos o irmão de duas das meninas da turma. Eu o via sempre do outro lado do portão de sua casa. Ele segurava o ferro com força, gritava, sacolejava, chamava, implorava. Não havia apelo que lhe tirasse de trás das grades. Sua voz podia ser ouvida longe, e, frequentemente, alguém se incumbia de significar o incômodo: “ele é mongolóide”. Nunca soube nada sobre aquele rapaz, além do fato de que se chamava Rodolfo e que vivia atrás das grades da própria casa.

Da escola, lembro-me do uniforme impecável, do hastear da bandeira, dos alunos em fila, da corrida pela nota mais alta no boletim, do ranking das médias colado atrás da porta da sala de aula, bem à altura dos olhos do diretor. Competição e eficiência, ensinavam-nos. Havia rimas lindas para aquela idade – diversidade, habilidade, possibilidade, felicidade. Nenhuma delas era convocada a compor nosso repertório de criança. Éramos todos tipicamente – ou ilusoriamente – iguais.

Na faculdade, finalmente, meu primeiro colega cego. Divertidíssimo, cantor talentoso, competente na escrita. Foi quem me arejou os conceitos: pessoas com deficiência existem. E podem estudar e trabalhar. E são felizes. Levou tempo até que eu compreendesse essa realidade. Quem não enxergava muito bem, até então, era mesmo eu.

Anos depois, minha filha Alice, uma criança de três anos com disfunção neuromotora (paralisia cerebral), me coloca boquiaberta na frente da televisão para assistir à abertura das Paralimpíadas Rio 2016. Desde o seu nascimento até aquele dia da estreia dos Jogos, quantos caminhos e pessoas se fizeram visíveis em minha vida, na contramão de uma cultura excludente! Quero ver os atletas paralímpicos não para constatar que eles existem. Sobretudo, quero constatar que nós existimos, eu e minha filha! Que estamos ali representadas, identificadas com aquele terço da população que não se notava. Não somos invisíveis! Nunca fomos. Nunca seremos. (ainda que a TV aberta queira fazer crer que sim).

Olhos grudados, atentos, estupefatos, voltados para a cerimônia dos Jogos. Quando o homem Vitruviano de Da Vinci é desconstruído em sua perfeição, a realidade se curva em reverência. Não somos perfeitos, somos melhor que isso. Quando o casal de cegos dança em harmonia, refinamos a sintonia com o que temos de mais íntimo e belo. Quando a atleta Márcia Malsar se desequilibra e cai, com a tocha olímpica, para em seguida se levantar e seguir em frente, nossa humanidade pulsa em coragem e vitalidade. Quando pais conduzem, de pé, filhos que não andam, de uma ponta a outra do estádio, carregando a bandeira da alegria, é o afeto que refaz a travessia do enfrentamento e da esperança.

Se minha vida esteve, durante algum tempo, apequenada pela normose, as Paralimpíadas consagraram minha redenção. A vida é diversa, é única, é pulsante. Por isso é bonita. Não é só minha filha Alice quem me ensina essa lição. Tem um punhado de atletas celebrando essa verdade de maneira eficiente para o mundo inteiro.  A deficiência resignificada não como incapacidade, mas como incompletude. Não como falta, mas como busca. Cada vida, uma possibilidade. Cada possibilidade, uma realização. Cada realização, uma alegria.

 

11-leonardo

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