De pé

Sempre acreditei que ficar de pé dependesse, grosso modo, da sincronia entre músculos, ossos, articulações e comandos. Sem ignorar a complexidade desse movimento para o corpo humano, a maneira quase instantânea com que o realizo me fazia crer que bastava um organismo razoavelmente sadio para viabilizar o corpo ereto.

Então, Alice chegou ao mundo. Muitos exames de imagem do cérebro foram realizados em seus dois primeiros anos de vida. Ela falaria? Andaria? Houve um tempo em que essas respostas nos foram importantes. Pensava que seria possível predizer sua condição. Mais do que isso, acreditava que falar e andar eram habilidades determinantes para sua felicidade. Afinal, esse era o único caminho que eu conhecia!

Logo nas primeiras consultas, o neurologista nos esclareceu que não poderia antecipar nada a respeito do futuro da pequena Alice. De fato, não é possível prever sobre o futuro de qualquer criança, de qualquer pessoa, penso eu. A diferença é que, entre crianças típicas, a probabilidade de que o conjunto de habilidades necessárias a uma vida autônoma se desenvolva é grande. Já com as crianças atípicas, em vez de probabilidades, consideram-se possibilidades. Ou nem isso, como no nosso caso.

Foi a partir daí que o incerto, o impreciso e o improvável assumiram lugar no cotidiano de minha filha. Estão lá, mas nunca tomaram as rédeas da situação. Alice não os ignora. Ao contrário, convida-os para dançar! Inventa a leveza, o macio, o momento. Ainda que eles queiram ditar o ritmo, ela só dá ouvidos a um único chamado: o próprio querer!

É esse desejo profundo que a move, mais do que qualquer parte de seu corpo. Todas as suas limitações se curvam à sua vontade. Von-ta-de! Não obrigação, não necessidade, não condição. Von-ta-de! É isso o que a coloca de pé, diante da vida, curiosa, ávida, realizada! Aos três anos, Alice não sustenta a cabeça, não rola, não senta. Mas finca os pés no chão, iça o corpo, equilibra a cabeça e olha para o mundo corajosamente. Quer conhecer, quer descobrir, quer experimentar! De que falam mesmo os exames de imagem que tanto buscamos?

A mim, sua mãe, cabe ser anteparo de sua busca, de suas decisões. Cabe assumir nossa imperfeição, nossa vulnerabilidade para nos sabermos mais fortes. Cabe admirar. Sobretudo, cabe compreender que estar de pé diante da vida não é só um exercício do corpo. É antes, muito antes, uma atitude pujante da alma que se coloca à serviço do querer e do enfrentamento.

alice

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3 respostas para De pé

  1. Sara disse:

    Eu gostaria de falar pra vc sobre o CME-Cuevas Medek Exercises. É o método de Ramon Cuevas, em Santiago do Chile. Eu estive lá durante duas semanas e foi muito útil para o meu filho. Você já experimentou essa terapia? Escreva-me. Ab.

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  2. Sara NOEL-BOUTON disse:

    Você já experimentou o método CUEVAS Medek Exercises? Talvez seja muito interessante para a Alice. Para o meu filho funcionou muito bem.

    Se quiser, escreva-me no WhatsApp: +55-81-9-9620-7108 (TIM).

    Um abraço e parabéns pela sua dedicação com a Alice. Ela está de pé graças a você!

    Atenciosamente, Sara Noël-Bouton

    Enviado do meu iPhone

    >

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