Minha filha Alice,

Três anos atrás, no dia de hoje, o seu nascimento foi nossa separação. Enrolada em um plástico, entubada, você foi levada para a UTI neonatal, onde passou os primeiros 145 dias de sua vida.

Não senti seu cheiro, não acariciei sua pele, não abracei seu corpo junto ao meu peito. Você, miudinha, estreou a vida nas luvas assépticas de uma médica. Todo rosto que pude ver naquela sala de parto era tenso, apressado, grave. Só o seu me redimia.
Eu olhei você com todo o meu amor, filha! Meu pensamento foi o seu aconchego. Eu tinha uma alegria teimosa, que coloquei numa pequena mala, junto com as menores roupas que já existiram. Nenhuma lhe serviria, nenhuma você poderia usar. Confesso: minha alegria era ingênua. Talvez por isso tenhamos nos salvado naquele momento.

No dia 17 de agosto de 2013, entrei naquela maternidade como qualquer mãe! Mas os dias que se sucederam subtraíram de mim, de nós, qualquer possibilidade de uma trajetória comum, ordinária. Nós nos despedimos 145 vezes sem nunca desertarmos de nosso posto! Nós nos alegramos pelo reencontro 145 vezes como se fosse a primeira vez!

Estivemos cercadas por aparelhos, alertas sonoros, plásticos, aventais, luvas, tubos, sondas. Nossa convivência era organizada por protocolo e precaução. Mas nós soubemos dispensar todos esses artifícios para nos fazermos, cotidianamente, mãe e filha. Entre nós, só o timbre da voz, o calor das mãos, a consciência da presença, do cuidado, da coragem, da esperança. E uma vontade sempre renovada de vivermos juntas tudo o que pudéssemos. Tudo o que podemos. Tudo o que poderemos.

Porque ali, naquele instante em que não fomos perfeitas, eu e você pudemos ser melhores que isso! Hoje, portanto, é o dia em que festejamos essa compreensão generosa sobre a vida! É o dia em que eu renovo meu desejo de que você, cada vez mais consciente da sua condição de imperfeição, se sinta livre para ser o que quiser ser. Eu sigo aprendendo com você. Porque posso ter entrado naquela maternidade como qualquer mãe. Mas saí de lá com o peito cheio de felicidade e gratidão como nenhuma outra.

Obrigada pelos seus três anos, minha filha amada!

Beijo estalado na ponta de seu nariz arrebitado,

Sua mãe.

Imagem1

Anúncios
Esse post foi publicado em Posts e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s