Alfabeto emprestado

Sentamos todos ao redor da mesa de jantar, que é o lugar onde são anunciadas as grandes decisões de nossa família. Éramos eu, Alice, minha irmã do meio, meus dois sobrinhos e uma prima. Conversa ricamente calibrada pelas percepções de duas adultas, dois adolescentes e duas crianças.

Em dado momento, falávamos sobre o redirecionamento das terapias de minha filhota nesse ano que se inicia. As abordagens para a habilitação da pequena Alice recaem, prioritariamente, no esforço para aquisição das habilidades que ela não possui: sustentar o pescoço, sentar, rolar, mastigar e deglutir de maneira coordenada, aprimorar a visão etc. Passados meses e meses de investimento emocional e financeiro, serenamos na compreensão de que ela desenvolverá algumas ou todas essas funções em seu próprio tempo e com a orientação adequada, mas sem as urgências dos padrões ou das expectativas daqueles que a rodeiam.

Por outro lado, é notório o seu crescente interesse em descobrir o mundo! Às descobertas ela oferece ouvidos atentos, gestos desengonçadamente decididos e expressões genuínas de deleite. Por que não potencializar aquilo que ela mostra com mais eficiência? Por que não dar-lhe condições de se libertar de seu corpo e expressar toda a sensibilidade que lhe sufoca os poros? Foi por isso que iniciamos nossa aposta na comunicação alternativa. A fonoaudióloga e a terapeuta visual estão trabalhando conosco nas opções mais ajustadas para oportunizar a interação com nossa Alice.

Nesse ponto da conversa com minha irmã, sublinhei a esperança de que essa investida desse à minha filha condições de frequentar a escola num futuro próximo. Foi então que Arthur, meu sobrinho de 4 anos que parecia alheio ao que falávamos, comentou com seu humor tão perspicaz: “ah tá, ir pra escola sem falar uma palavra!?”. Entre risos, pusemo-nos a explicar que existem muitas maneiras de a gente se expressar, inclusive sem palavras. Exemplificamos os gestos, as expressões corporais, os artifícios eletrônicos e outras adaptações possíveis. Depois de enumeradas diversas alternativas, concluímos com a certeza mais bonita de que todos nós construiríamos junto com a Alice sua forma de se comunicar, seja ela qual fosse. Demo-nos por satisfeitos e seguimos falando amenidades.

Arthur, então, fez um tom solene para me pedir papel e caneta como artigos de primeiríssima necessidade. Aos 4 anos, ele escreve, precocemente, algumas palavras. Dessa vez, elas seriam destinadas à priminha que tem atraso de desenvolvimento. Rascunhou seu recado sem cerimônia. “Se você quer o alfabeto, é só me dizer”, foi o que li no pedaço de papel que ele entregou, confiando a mim a intermediação junto à Alice. Foi assim que, em torno da mesa, Arthur anunciou mais uma importante decisão em nossa família: a da empatia.

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Bilhete do Arthur, 4 anos, à prima Alice, 2 anos.

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