Tempo, mano velho

Temos tido dias de peleja e labuta. Apesar de todos os esforços, de todas as medicações, Alice tem sido acometida por longas e severas crises convulsivas diariamente. Assisto, tomada de pavorosa impotência, seu corpo ser chacoalhado pelos espasmos, numa descarga elétrica própria das piores tempestades. Diante do irremediável, chovemos. Coração se encolhe, miúdo, e vai se abrigar junto à esperança de tempos melhores. É lá que esperamos a nebulosa passar para recobrar os sentidos e seguir em frente. Não é fácil. Dói. Mas sempre passa.

Eu vinha pensando nas inúmeras lesões no cérebro da pequena Alice, decorrentes da prematuridade extrema e da parada cardiorrespiratória que lhe tomou definitivos 26 minutos, aos 40 dias de vida. Isso haveria de explicar por que as tentativas de minha filha de acomodar vontade, função e comando levam, inevitavelmente, ao curto-circuito. Seu cérebro está organizado em torno de perigos e abismos, herdados da condição de nascimento e pós-natal. Todo o seu trabalho é tornar possíveis os percursos resvalosos e improváveis da realização de uma menininha de 2 anos, no mundo!

Até que uma amiga generosa acrescentou outra compreensão. Sua filha está se debatendo dentro do casulo, ela me disse. Não seria isso o que está desencadeando tantas convulsões? Observo Alice empoderada, de pé, com um discreto apoio lateral, e reverencio o improvável que toma corpo. Ela não sustenta a cabeça, não senta, não tem controle de tronco, mas faz dessas condições uma singela moldura pela qual transborda sua intenção. É de pé que ela quer abraçar a vida. É de frente que ela quer olhar o mundo. Mas como será possível ajudá-la a não pagar o preço cumulativo dos recorrentes espasmos por isso?

Dei para dizer a ela: tome posse de seu tempo, minha filha. O tempo necessário dentro do casulo. Ele é só seu. Não é de sua mãe, não é de seu pai, não é de ninguém, é seu o tempo. Não tenha pressa. Não temos pressa. Nós já aprendemos que a direção é mais importante que a velocidade. E eu vejo você seguindo empoderada, bonita e cheia de desejos ao encontro das descobertas que potencializam seu contentamento. Apenas, vá devagar. Não é curioso que eu lhe diga isso, filha? Eu, que sempre tive pressa, muita pressa, tal qual aquele coelho da história que leva seu nome ao país das maravilhas! Mas você colocou tudo sob outra perspectiva, felizmente. De tal forma que meu desejo, hoje, é que você concilie sua intenção com sua possibilidade. Vamos aprender a acomodá-las em seu cérebro, em nossos paradigmas, na justa medida da sua metamorfose. Você vai semeando seus desejos, e o tempo, nosso aliado, fará com que eles brotem, um a um. Então, ainda que não possa usar suas asas, você terá aprendido a voar grande e bonito. E eu voarei com você, filha.

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