Lusco-fusco

Alice costuma se despedir do dia que termina aos prantos. O lusco-fusco exerce uma certa hipnose sobre ela e parece evocar ora medo, ora angústia, ora cansaço, ora irritação. É um choro inconsolável, sentido, mobilizador. Um choro que me enlaça nas infindáveis tentativas de decifrar aquilo que pretende revelar, mas esconde. As lágrimas de minha filha turvam meus sentidos. Em torno de seis horas da tarde, todos os dias, ela convoca o choro para expressar o que não pode ou não sabe nomear. E me desafia.

Depois de meses tentando identificar o que acreditava ser um mal estar no corpo, intuí outra abordagem. Antes do pôr do sol, acomodei a nós duas bem de frente para a janela. À nossa frente, a cidade se recolhendo, o céu mudando de cor, as luzes anunciando o breu. Éramos nós duas – mãe e filha -, sem subterfúgios para lidar com o sentimento que nos consumiria nos momentos seguintes. Sem colo, sem balanço, sem passeio, sem música, sem remédio. Somente nós duas e o inominável sentimento.

Iniciei a narrativa significando aquele horário. Descrevi as atividades que preenchem o dia e aquelas próprias da noite. Chamei a atenção para o ritual em torno da passagem de bastão do sol para a lua. Enfatizei o quanto esse ciclo é apaziguador, é confortante, é organizador das expectativas que nos movem ao próximo dia. E, então, disse a minha filha, a despeito de seus dois anos de idade, que ela não precisava ter medo daquele horário. Que estaria sempre protegida. Que não estaria só. Que quando o dia vira noite, é sinal de que ela conquistou, descobriu, interagiu, aprendeu e, sobretudo, foi muito amada!

Senti que a conversa fazia algum sentido pela escuta lapidada pela interesse que Alice me ofereceu. Quieta e relaxada, ouviu-me por quase meia hora. Enquanto falava, era inevitável me lembrar das tantas dores que rondaram esse horário no curto período de vida de minha filha. Era o horário de nossa separação, na unidade semi-intensiva do hospital. Era a despedida. Foram também essas as horas que anunciaram sua parada cardiorrespiratória. Assumi a suposição de que tudo isso estava, está registrado em seu inconsciente. E que, na ausência da linguagem, ela manifesta o que lhe subtrai o bem estar da maneira mais elementar e inequívoca: o choro. Por isso, procurei atribuir significado para aqueles sentimentos, mesmo correndo o risco de uma interpretação imprecisa de minha parte. Trouxe à tona nosso medo compartilhado. Tentei nomear e significar, para que tivéssemos a oportunidade de reconfigurar nossa vivência das seis da tarde.

Naquele dia, permanecemos em silêncio alguns minutos após a conversa. Acolhemos o lusco-fusco junto às nossas próprias sombras. Não houve choro. Nem no dia seguinte, nem depois, nem depois… não mais.

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