Protocolo de dor 

No período em que Alice esteve internada na UTI Neonatal, conheci um procedimento adotado pela equipe de enfermagem chamado “protocolo de dor”. Quando o bebê se mostrava inquieto, irritado e chorava inconsolável, algumas gotas de glicose eram ministradas para adoçar o irremediável. Tal protocolo também me acompanhou pelos intermináveis dias de angústia e medo dos primeiros meses de vida de minha pequena Alice. Busquei amparo no açúcar, em suas mais diversas formas, para me nutrir da ilusão de conforto que me possibilitaria chegar ao dia seguinte. Assim, acumulei quase vinte quilos.

Quando Alice finalmente teve alta, assumi a vigília como função vital. Fosse dia ou fosse noite, eu estava ao lado de minha filha, velando seu sono, checando equipamentos e alertas sonoros, conferindo a respiração com suporte ventilatório. Acreditava que esta atenção que atravessava as horas nos garantiria a sobrevivência. Portanto, segui assim, semanas a fio, sem arredar pé. Sem banho por alguns dias, sem desfrutar as refeições, sem qualquer coisa que me tirasse daquela existência anestesiada.

Muitas vezes prometi que assumiria o cuidado de mim mesma como primeira necessidade, ciente de que não haveria outro caminho para que eu pudesse, assim, cuidar também de minha filha vida afora. Mas um prognóstico avassalador, um medicamento novo para convulsão, uma pneumonia me chacoalhavam em tremendo susto, e o sofrimento agudo me levava de volta à condição inicial de vigília. Os dias se sucederam à minha revelia. Tenho pouco lembrança dos fatos externos à minha história com Alice nesse período. Sinto que vivemos num hiato, numa pausa, num compasso entre uma coisa e outra, quando tudo está suspenso, aguardando definição. Não cabia mais nada, mais ninguém. Éramos nós, e todo o medo do mundo.

Mas fomos aprendendo, pouco a pouco, a abrir caminhos e criar possibilidades. As intermitências da vida foram revelando alguma graça e leveza, a cada dia que Alice vencia, viva. Passamos a existir para além da angústia, para além da dor, para além de nós. Ganhamos as praças, os parques, a rua, ganhamos o aconchego das casas da família, ganhamos os colos dos amigos, ganhamos visitas de toda sorte… ganhamos os dias!

Então, senti que era hora de eu também assumir outros papéis de novo, para além daquele que se tornou o predicado mais precioso da minha vida – o de mãe da Alice. Voltei a trabalhar. Aos poucos, para sentir que eu seria capaz de novo, até estabelecer uma rotina ajustada para nós duas. Por isso, senti também necessidade de me distanciar do blog, para que pudesse me redescobrir em outros papéis que, igualmente, me são tão importantes. Eu precisava de tempo para isso, de tempo para mim. Todas as vezes que tive dúvida, Alice me mostrou, de maneira muito própria, que eu poderia confiar em nossa capacidade de lidar com as adversidades e seguir adiante, com a nossa capacidade de alegria. E como ela competente nessa argumentação, fui acreditando…  Abandonei o açúcar, e a carga que se materializava em meu corpo ficou pelo caminho. O “protocolo de dor” foi, gradualmente, cedendo espaço para procedimentos que assegurassem à nossa família a capacidade de sermos leves. É assim que chegamos a esse final de 2015: redescobrindo a qualidade de vida por caminhos da coragem e do amor que, até então, desconhecíamos. Nossa filha, nossa guia.

Beijo da mamãe antes de sair para o trabalho.

Beijo da mamãe antes de sair para o trabalho.

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