Tudo passa

As intermitências da vida de minha filha Alice vem me auxiliando a depurar uma preciosa compreensão de nossa existência: tudo passa. Os dias de convulsões frequentes passarão, assim como os dias de bem estar também hão de passar. O choro vai passar, o riso vai passar. Aquela pneumonia vai passar, a euforia também vai passar. As noites sem dormir vão passar, os sonhos de leveza e alegria também passarão. A nossa existência parece mesmo esse bicho grande que ora nos devora, ora nos tira para dançar. E a gente vai costurando as horas nessa alternância de impermanências, alinhavando ponto a ponto com humildade e coragem, que, afinal, é só assim que se pode tecer uma história no desafio do tempo.


Mas há uma diferença entre viver a vida com a consciência de que tudo passa e vivê-la desejando que tudo passe. Na primeira circunstância, é a paz que nos toma pelas mãos e nos guia pelos dias afora. Já na segunda, é a angústia, o medo e a tristeza que nos amarram em horas intermináveis, quando o único pensamento parece ser o da espera de que o sofrimento tenha fim. A conclusão inequívoca em torno dessas experiências antagônicas guarda, em si, um paradoxo: nossa redenção e nossa ameaça estão a serviço do tempo.


“Tudo passa” é uma verdade capaz de acionar, simultaneamente, o medo, a tensão, o alívio, o descanso, a esperança, a promessa. Mas também motiva um desejo de que algo sobreviva às intempéries, como testemunha de que fomos, de fato, passarinhos nessa travessia. Então eu penso em minha filha: naquela gargalhada espontânea, naquele carinho inesperado, naquele cheiro quente de quando acorda, naquela expressão de surpresa que acompanha suas descobertas… nas tantas manifestações de quem experimenta a vida com grande disposição. Meu desejo de mãe era que nada disso passasse. Que permanecesse, como decreto de seu merecimento. Não sendo isto possível, posto que a alegria é mesmo matéria fugidia, apoio-me neste amor que Alice fundou em meu peito desde ontem, até depois, e depois, e depois… Tudo passa, menos esse amor.

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