A vida é bela

Bom dia! Sou a Leonora, irmã mais velha da mãe da Alice. Hoje escrevo com a intenção de dividir um aprendizado do qual fui testemunha ao longo desses quase dois anos da minha sobrinha. Desde muito cedo, eu e minhas irmãs aprendemos que a distância física não se traduz em distanciamento afetivo. Fomos encorajadas por nossos pais a ganhar o mundo e trilhar nossos caminhos com a segurança de que não nos faltaria aconchego. Antes mesmo da internet, dos smartphones, mantínhamos contato constante, mesmo morando em estados diferentes. Logo que a Alice nasceu e toda a realidade de cuidados intensivos se impôs, mais uma vez nos vimos tendo de driblar a distância entre nós.

A marca do nascimento é a separação da mãe, mas no caso da Alice e de tantos outros bebês, essa separação foi ainda maior, pois além de cortado o cordão umbilical, significando uma vida em separado, Alice e Mariana enfrentaram também a separação física. Na ânsia por notícias, eu ligava algumas vezes ao dia. Em um desses telefonemas, a Mariana começou a me relatar as aflições que sentia toda vez que tinha de deixar a Alice somente aos cuidados dos médicos e enfermeiras. Ela praticamente passou a “morar” no hospital. Enquanto não estava diretamente com a Alice, ficava conversando com as enfermeiras, com outras mães, tentando buscar pessoalmente resultados de exames e sondando novas alternativas de encaminhamento para os problemas enfrentados, juntamente com meu cunhado, o pai da Alice. Não teve informação que lhe tenha fugido, não tem cor, cheiro, barulho ou silêncio que não tenha sido por ela investigado, fazendo jus à leonina que é.

Como recurso para lidar com essa aflição, fui incentivando minha irmã a relatar tudo, absolutamente tudo, o que estava acontecendo para a minha sobrinha, na certeza de que o relato daria à mãe e à filha consciência de cada detalhe, cada cuidado e, principalmente, do vínculo que ali se formava forte e intenso o suficiente para aplacar a distância física imposta pela rotina na UTI. Valia tudo: contar que o papai estava chegando do trabalho, que os avós estavam do lado de fora aguardando notícias, que as tias ligavam, sobre os presentes que ela havia recebido, sobre o seu quarto em casa, a função de cada fio conectado em seu corpinho, bem como os barulhos que ouvia, os nomes das enfermeiras, o tempo lá fora, a dedicação de sua madrinha, enfim, todo o amor, cuidado e torcida que a envolviam.

Fato é que minha irmã tornou tais relatos verdadeiras poesias. Recitava, cantava, pregava bilhetes na incubadora, inventava apelidos, programava mini comemorações. Assim como no filme “A vida é bela”, Mariana reinventou toda aquela realidade, coloriu de emoção, e trouxe, dia a dia, minuto a minuto, a Alice para o nosso colo.

Os primeiros dias da Alice e os primeiros toques de sua mãe

Os primeiros dias da Alice e os primeiros toques de sua mãe

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