Olhos nos olhos

Desde que recebemos o diagnóstico de visão subnormal de nossa filha Alice, um rol de perguntas ganhou a preferência dos médicos e terapeutas: ela encara você? Olha nos olhos? Fixa o olhar? As questões explicitadas assim, sem rodeios, faziam com que a resposta negativa soasse terrível. Escancarava uma realidade que, dentre as tantas alternativas de conexão de que dispúnhamos, parecia menos importante. E em seguida vinha um silêncio denso, uma sobrancelha suspensa, uma anotação inconclusa.

Foi quando nossa presença, especialmente a minha e de meu marido, começou a ganhar adereços: uma gravata de papel reluzente pendurada no pescoço, um nariz de palhaço, uns óculos de armação enorme e colorida, um batom muito vermelho na boca. Eram artifícios que pretendiam nos vestir de interessância e adequação aos olhos de nossa filha. O semblante desengonçado e exagerado que assumíamos invariavelmente nos levava às gargalhadas, mas também mantinha nosso propósito bem evidente. E assim, vestidos de uma esperança que nos divertia, começamos a fisgar o olhar de nossa filha. De relance, ela começou a perceber sua mãe e seu pai. Olhava e piscava, encarava dois segundos e desviava.

Pouco a pouco, os olhos da pequena Alice para o mundo foram adquirindo forma, fundo, vivacidade, expressividade. Mais do que admiradores desta fabulosa transformação, passamos a valorizar seu olhar como estratégia de interação com o mundo. De início, uma piscadela intencional flertava com seus interesses. Depois, os olhos se lançavam na direção que permitisse localizar os familiares. Hoje, salpicam curiosidade por todos os espaços que descobrem. Ainda não conseguem repousar em observação, mas se demoram suficientemente para notar e construir imagens do mundo e, sobretudo, das pessoas.

Sensível ao desenvolvimento da prima, meu sobrinho mais velho decidiu aproximar-se espontaneamente. Deitou-se frente a frente com Alice, sem dizer uma palavra. Ficaram ali alguns minutos. Eram só os olhos, os dele e os dela. E toda a ternura do mundo. Sem nariz de palhaço, sem óculos, sem batom, Alice percebeu com nitidez toda a doçura que se apresentava a ela. E resolveu se demorar ali.

Bruno e Alice

Bruno e Alice

Anúncios
Esse post foi publicado em Posts e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Olhos nos olhos

  1. misscamilad disse:

    Alice querida,
    Você me traz lágrimas nos olhos. ❤
    Minha filha tem um pouco de atraso também, ela tem artrogripose, que mesmo leve faz com que ela ainda não se detenha de pé.
    Vocês, crianças, fazem com que nós, os pais, tenhamos certeza de que nada podemos controlar, mas nos dão toda alegria do mundo, e pequenos avanços nos enchem de esperança.
    Um beijo,
    Camila.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s