Superando paradigmas

Sua filha ainda vai surpreender você, vai superar muita coisa. Arrisco dizer que esta é a frase que mais ouço quando se referem a minha pequena e doce Alice. Uma afirmativa que vem carregada de afetividade, de torcida, de energia. Talvez também algum desconforto. Talvez um desejo de que a condição dela se resolva ou se aproxime o máximo possível dos padrões “normais” de desenvolvimento. Talvez um julgamento de que se as coisas ficarem como estão, poderemos ser privados da felicidade plena. Talvez apenas um desejo de que ela possa ampliar as possibilidades de interação com o mundo. Talvez.

Entre as tantas incertezas de minha maternidade atípica, uma verdade se enraizou em meu peito. Cavou fundo, fincou pé, com o adubo das experiências cotidianas e, dali tem feito brotar nossos tantos caminhos. Não quero que minha filha supere nada, tampouco surpreenda. Não assim, como meta, como destino, como objetivo a ser perseguido. Arriscando aqui as incompreensões, as discordâncias e as distorções, falo assim mesmo, com a palavra franca, sobre a verdade que cresce frondosa em minha vida.

Explico. A pequena Alice teve um início de vida prodigioso. Venceu hemorragias no cérebro e no pulmão, livrou-se de cinco infecções, transpôs uma cirurgia de retina e deu a volta por cima em uma parada cardiorrespiratória de 26 minutos. Tudo isso antes dos cinco meses de idade. A imaturidade e a fragilidade de seu organismo precisaram driblar a própria morte mais de uma vez. Naquela situação, desejei com toda a força que conhecia que ela nos surpreendesse, contra todos os prognósticos, e superasse as intercorrências, fosse como fosse. Queria apenas que ela vivesse. As sequelas ou dificuldades que viessem a se revelar depois, nós as enfrentaríamos juntas. Foi o que disse a ela, incontáveis vezes, à beira da incubadora. Ela ponderou tal pedido, entre lá e cá, e decidiu experimentar a vida e o amor que acenavam para ela. Parecia promissor. Parecia uma promessa.

E cá estamos, juntas, nos enfrentamentos e encantamentos que tecem nossa história. Um alívio nos sopra aos ouvidos todos os dias: ela já não precisa superar mais nada, a despeito de sua paralisia cerebral. De agora em diante, só viver, só experimentar, só desbravar, só descobrir. Alice carrega dentro de si todas as ferramentas para extrair as riquezas do mundo. Porque antes, muito antes, essa alegria está sendo cultivada pelo que ela é e até pelo que pode vir a ser, não como necessidade ou imposição, mas como consequência do exercício do viver em sua plenitude. Sem a cobrança do vir a ser, sem a ilusão de “quando ela falar”, “quando ela andar”, “quando ela estiver na escola”, nossa semeadura é no agora, nossa alegria não conhece adiamentos. Nossa abundante energia não está sendo depositada nas chances de ela falar ou de ela caminhar com as próprias pernas. Pode ser que isso nunca aconteça, pode ser que seja já já. Pouco importa. O que temos que buscar juntas, incansavelmente, até o esgotamento se preciso for, é que Alice tenha garantido seu direito e sua liberdade de ser quem é, de ser como é. Que saiba cativar espaço e afeto por onde passe, muito mais do que compaixão. Que não cresça subjugada às expectativas de que ela supere as limitações da disfunção neuromotora para ser aceita ou valorizada. Meu único desejo de mãe é que minha amada filha possa viver de maneira plena toda a sua capacidade, sem desejar o mais que sufoca, nem se acomodar com o menos que aprisiona. É essa convicção que planto em sua infância, esperançosa de que cresça cada vez mais robusta em seu caminho, assim como meu amor.

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Uma resposta para Superando paradigmas

  1. Camila disse:

    É o que sempre digo sobre a minha própria filha: Ela é perfeita no que ela é. PONTO final. ❤

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