Ela, eu e os fazeres cotidianos

Pois sim, ela cresceu. Já não é mais uma bebê. Tem dentes e pernas fortes, tem preferências e vontades. No entanto, as habilidades preponderantes nas crianças da mesma idade, como sentar-se, andar e falar, ainda não se manifestaram por aqui. Tal constatação me impõe um desafio tão sutil quanto poderoso: o de viver as experiências e atividades cotidianas COM minha filha e não POR minha filha.

Na prática, isso pode parecer ora uma impossibilidade, ora uma tolice. Levar-lhe a colher à boca, lavar-lhe o corpo, vestir-lhe as roupas são automatismos que vão se realizando com o passar das horas, rotineiramente. Não sendo a pequena Alice capaz de realizar tais tarefas por si só, que alguém possa assumi-las, garantindo-lhe os cuidados essenciais para seu bem estar. Ocorre que se realizo todas as atividades por ela, estou a subtrair seu interesse e seu desejo pela vida. Nego a ela a oportunidade de descobrir o que é fazer um movimento pela primeira vez, ainda que assistido.

Então, reorganizo meu modo de pensar e agir para que, no lugar de fazer por ela, possamos fazer juntas. Minha mão junto à dela, meu braço colado a ela, minha voz sustentando sua respiração, meu coração e o dela no mesmo compasso. É a mão dela, conduzida pela minha, que encontra os próprios cabelos e esfrega, esfrega, esfrega até produzir uma espuma branca e macia. Ela, então, pode conhecer o toque de seus cabelos, pode sentir as cócegas da vigorosa fricção, pode espalhar a espuma pelo próprio corpo. Ela também pode levar o copo de suco à boca sem medo, pois minha mão e a sua vivem em simbiose. E pode sentir as gotas que escapam pela boca, pelos dedos, e escorrem festivas dos braços ao peito. As roupas tomam forma em seu corpo a partir de cada movimento possível: um levantar de braços, que sustento no ar, uma esticada de perna, que conduzo calça adentro.

Alguém pode supor que gastamos o dobro do tempo nessa função. De fato, talvez até mais. Um tempo que considero privilegiado para o conhecimento que construímos juntas sobre nós mesmas. Ela já espera que eu peça, eu já espero que ela faça. Vez ou outra, ela me surpreende. Um gesto que minha filha assume por si só, mesmo que desengonçado, desconjuntado, é um mecanismo de persuasão do cérebro de tudo aquilo de que ela é capaz. Mas, ainda que ele não se convença disso, teremos experimentado, dia após dia, movimentos que nos propõem o prazer de viver, sem precipitações, nem adiamentos. Tudo em seu justo tempo: o tempo da cumplicidade e da descoberta.

O cantinho em que Alice se despe, se veste e se gosta.

O cantinho em que Alice se despe, se veste e se gosta.

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