A menina dos porquês

– Por que ela fica com os olhos às vezes abertos, às vezes fechados? Por que não fica com eles abertos, abertos, abertos, abertos…?

A pergunta é de uma menina de 5 anos que tem adoração pelos porquês. Não titubeia nem um segundo que é para não perder o tempo precioso de saciar seus interesses. Enquanto ela formula sua questão, abre as mãos em torno dos próprios olhos, numa ênfase que tem o tamanho de sua curiosidade.

– Porque ela tem o músculo dos olhos ainda fraquinho. Precisa fechá-los pra descansar um pouco, recuperar a força, e abrir de novo, pra conseguir ver. Então ela fecha pra descansar, e abre pra observar. Abre e fecha, abre e fecha. E, assim, consegue perceber tudo.

A menina me olha desconfiada da resposta que acabara de ouvir. Continua nos fitando, a mim e a minha filha, tentando decifrar aquilo que sua observação minuciosa lhe revela. Rodopia em volta do carrinho, investiga todos os botões, pergunta, pergunta e pergunta. Minha pequena Alice vai acompanhando com os olhos e a cabeça, até que a conexão das duas é interrompida por meu comentário.

– Olha, a Alice está interessada em você. Está observando você rodar em torno dela.

E aí eu emendo, propositadamente na primeira pessoa, como se estivesse dando voz à minha pequena.

– É sim, estou gostando do seu jeito!

A menina dos porquês me olha fundo, com ar de reprovação.

– É você que está falando, não ela!

Rendida em flagrante, explico que Alice ainda não fala, mas que consigo saber exatamente o que ela está sentindo e que podia assegurar que ela estava gostando.

– Ah, sei…

Sigo dando suco para Alice. A menina parecia ter perdido o interesse. Mas de lá de seus pensamentos me escuta dizendo:

– Então você não quer mais, Alice? Tá bom, não vou te dar mais. Você já está satisfeita.

E antes que eu me desfizesse do copo, lá vem a menina tirar a prova.

– Ela não falou nada! Como você sabe que ela não quer mais? E se ela quiser?

– Não, ela não quer. Ela virou a cabeça para o lado e cuspiu o que ainda tinha na boca.

– Ah, sei…

Definitivamente, eu não parecia convencer a menina segura de seus porquês e de suas interpretações tão perspicazes. Ela se põe a nos observar criteriosamente, cada gesto, cada palavra, cada olhar… Demora-se nessa tarefa, apesar de todas as urgências do brincar. Percebe que eu seguro a mão da Alice em torno do copo, que preciso ajeitar cada dedinho e dar o apoio necessário à sustentação. Um novo porquê se junta a nós.

– Por que ela não consegue segurar sozinha o copo?

– Ela ainda não sabe fazer isso. Está aprendendo aos poucos. É que ela nasceu muito pequenininha e isso fez com que ela tivesse que aprender muitas outras coisas, até aquelas que a gente já nasce sabendo. Ela precisou aprender até a respirar sozinha. E agora ela já sabe fazer uma porção de coisas, e está descobrindo muitas outras. O que ela ainda não sabe, eu ajudo.

– Ah, sei…

Fiquei pensando se a menina tinha conseguido satisfazer cada um dos seus porquês. Pensei ainda o quanto cada um deles nos aproximou. O quanto a sua curiosidade ingênua e até seu estranhamento a levaram para mais perto de minha filha. Coube a um gesto derradeiro o desfecho que arremata a compreensão com a empatia.

– Quer vir no colo, filha? Dá os braços pra mamãe se você quer vir.

E antes que Alice esboçasse qualquer movimento, a menina já não me pergunta por quê, mas me mostra como tudo aquilo fez sentido para nós três.

Ela dá a volta no carrinho, pega os braços da Alice e os conduz, com toda delicadeza e  cumplicidade, em direção a mim.

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