A órtese que é desafeto

Desde o final do ano passado, Alice começou a usar órteses nos pés. Ela já havia aprendido que para conseguir movimentar o corpo com ênfase, bastava espichar bem as pernas e colocar os pés em ponta feito bailarina. Tal atividade foi, pouco a pouco, se consolidando como solução ajustada para o alcance de objetos ou para as manifestações de alegria. Foi preciso contar com o apoio dos tutores, que permanecem em uso, para que ela tivesse esse movimento inibido e pudesse descobrir outros caminhos de expressão. Afinal, o que hoje parece eficiente e gracioso pode, num futuro próximo, se transformar em deformidade e impedimento para aquisição da marcha, por exemplo.

É fato que ela não gosta das órteses. Reclama, resmunga. Passo o dia um tanto sem graça, sem assunto, ressentida. Inúmeras vezes tira os pés do lugar, mesmo estando bem calçados, e quando vamos retirar os tutores para corrigir o posicionamento, ela trava um empurra-empurra com grande competência. Ainda assim insistimos. Com jeito, é claro. Aliviando em alguns momentos, explicando em outros, tirando o foco dos pés ou reforçando que é preciso algum esforço. Basta pronunciar a palavra “tutores” que o rosto da pequena se contrai e a insatisfação se instala. Algumas vezes, dizemos: hora de colocar aquilo que a gente não pode dizer o nome. Como se isso fosse capaz de despistar a perspicácia de minha filha. No primeiro velcro que se abre, está denunciada a inconfidência.

Na tentativa de tornar essa necessária correção dos pés menos penosa, descobri, no site da AACD, a venda de bonecas que fazem uso de tutores, muletas e cadeiras de rodas. Encontrei a Nina, uma boneca charmosa, simpática, que carrega uma bolsinha atravessada pelo tronco e uma órtese em uma das pernas. Resolvi pedir ajuda à Nina para convencer Alice sobre o assunto.

Quando ela, enfim, chegou, senti grande satisfação em encontrar uma imagem que simbolizasse a mesma condição de minha filha. Apresentei-a cheia de entusiasmo à Alice. Passei dias somando palavras ao repertório de defesa da graciosa boneca, mas nada a convenceu. Ela continua nutrindo desafeto pelos tutores. E agora ainda tem a Nina como testemunha. Ou melhor, como cúmplice.

(A boneca não é comercializada. Para obtê-la, é preciso fazer uma doação para a AACD, por meio do próprio site. Sendo uma instituição séria, o prazer de contribuir é acrescido da alegria de receber esse mimo tão oportuno).

nina nina2

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