A necessidade da arte

Alice gosta de passear, especialmente quando está no carrinho, em contato mais estreito com a rua. Gosta de sentir a brisa, de acompanhar as buzinas dos carros, de observar a movimentação das pessoas, de perceber o ritmo que toma conta dos espaços nos diversos momentos do dia. Suponho que seja uma experiência sinestésica para ela: os sentidos vão se adensando, sobrepondo-se, e a cada esquina o mundo se apresenta feito banquete para sua curiosidade. Inicialmente, eu tinha receio de que o excesso de estímulos de toda ordem pudesse desencadear convulsões. De fato, isto ocorreu durante um período, especialmente nas situações em que muitos sons disputavam seus seletos ouvidos. Mas há algum tempo nossa filhota se fortaleceu nesse sentido, e os passeios foram se tornando momentos de uma alegria mansa e duradoura. (Mesmo que eu ainda insista em maldizer nossas precárias calçadas e a estarrecedora falta de respeito dos motoristas para com os pedestres.)

Por conta disso, duas oportunidades absolutamente distintas nos fartaram nos últimos dias: a passagem da Alice pelo Carnaval e um passeio no Museu. Nossa participação no Carnaval foi previamente planejada. Fomos ao show do cantor e compositor Toquinho, que se apresentou com delicioso repertório de samba e chorinho, além das canções infantis. A praça que recebeu o evento era espaçosa, de tal maneira que todos nos acomodamos confortavelmente. Alice assistiu ao show com interesse, especialmente pelos instrumentos de som mais agudo. Levantou os braços, balançou as pernas, arregalou os olhos, expressou seu contentamento com competência. E dançou muito no colo de sua mãe e de seu pai, consagrando uma satisfação que não cabia no peito.

Dias depois, fomos à Praça da Liberdade, um dos pontos turísticos de nossa cidade, para apreciar o fim da tarde. Lá, decidimos, despretensiosamente, prolongar o passeio em um dos Museus que cercam o local. Havia uma exposição de um artista plástico. Com a Alice confortavelmente acomodada em seu carrinho, fomos percorrendo os corredores, experimentando, assim como ela, suas reações. Para nosso espanto, nossa filha mostrou grande interesse. Observou alguns quadros com demora. Por vezes, piscava seguidamente os olhos para, logo após, continuar fitando as cores e formas que a ela se apresentavam. Tivemos a companhia das telas por cerca de uma hora, com fôlego e vontade renovados a cada sala. Senti-me agradecida por não carregar comigo pressupostos ou pré-conceitos em torno daquilo que nossa filha gosta ou não gosta, pode ou não pode fazer. Se fôssemos rigorosos, talvez não tivéssemos vivido junto a ela a riqueza dessas oportunidades aqui narradas, seja o show, seja o museu. Mas nossa confiança, nossa cumplicidade e nossa vontade de experimentar o mundo que Alice nos mostra vão ganhando contornos de certeza a cada dia. Por isso, lançamo-nos às novas experiências sem medo. E se é preciso amor para os enfrentamentos da vida, é preciso também a arte para resignificá-la.

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