Visão de mundo

A primeira vez que entrei em seu consultório, eu tinha as mãos trêmulas. Ainda na entrada, avistei sua placa de identificação profissional, onde se lia, logo abaixo de seu nome, a descrição de sua especialidade: habilitação e reabilitação da visão subnormal. Eu trazia no colo minha filha, à época com 6 meses, com um dos braços arrastava uma bala de oxigênio e tentava, sem sucesso, equilibrar as emoções que me tomavam de assalto. O fato de ter lido em letras destacadas “visão subnormal” conferia uma concretude avassaladora à condição da minha pequena. O peso destas duas palavras ofuscou  minha compreensão de tal forma que quase não notei que ali também se lia “habilitação e reabilitação”. Entrei na sala com a visão embaçada, sofrendo de cegueira da razão.

Naquela época, eu não sabia nada sobre (re)habilitação visual. Mas encontrei ali uma professora e tanto! A fisioterapeuta especializada nesta prática foi me explicando como se dava o trabalho, quais os princípios e as possibilidades, como deveríamos estimular a Alice cotidianamente. Ao final da primeira consulta, o que parecia obscuro tinha começado a se tornar encantamento. Dali em diante, cada resposta positiva que Alice apresentava, com seus olhos batalhadores, era uma piscadela festiva à vida.

A cumplicidade e a parceria que assumimos nessa tão bonita tarefa de ensiná-la a ver o mundo foram as razões pelas quais aguardei tanto pela consulta desta semana. Havíamos tido a notícia de uma perda parcial da visão de nossa pequena, em função do uso de uma medicação para controle de convulsões. Tudo feito em caráter de urgência, conversa apressada com a neuropediatra, programação para retirada gradativa do remédio, sobrou pouco espaço para acolher nossas dúvidas e incertezas em torno do ocorrido. Foi por isso que, ao contrário da primeira vez, eu quis correr para a consulta rotineira com a terapeuta visual. Agora, além da expressão “visão subnormal”, o que direciona toda a minha intenção e a minha atitude é a palavra “reabilitação”.

Se é verdade que aqueles que tem visão subnormal aprendem a enxergar o mundo por meio dos contrastes, é também verdade que é possível educar o medo e colocar a realidade sob outra perspectiva nos valendo da mesma máxima. Se há um diagnóstico, há um tratamento. Se há um problema, há algo a ser feito. Se há dúvida, há também possibilidade. É assim que minha filha tem me ensinado. E, especialmente hoje, não lamentei a perda sofrida, mas agradeci imensamente os recursos ao nosso alcance, potencializados pelo nosso afeto. Terminamos a sessão com um para-casa de imensa responsabilidade para colocar em prática junto à Alice. Mas ainda maior, mais vultuosa, era nossa alegria por tudo o que temos por fazer. Há vida, há esperança. Quando saí do consultório, outras palavras afixadas em um quadro me prenderam a atenção: “Quero olhar ao meu redor e ver além do que meus olhos podem ver”.

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