Um fato ordinário

Durante as férias na praia, Alice aproveitou a piscina todos os dias. Entrava pela manhã, para despertar e festejar o corpo, como aperitivo do dia que estava começando, ou no final da tarde, para relaxar e descansar na água já amornada pelo sol. Em ambas as situações, seu contentamento era evidente. Mãos relaxadas, pernas ativas, ela ia experimentando as sensações daqui e dali, sempre amparada por seus pais, e também por uma bóia de pescoço.

Mas houve um momento que nos marcou de maneira especial. Aquele segundo em que um piscar de olhos parece comportar uma infinidade de acontecimentos. Alice deu uma pernada mais forte na água, a bóia que envolvia seu pescoço afundou ligeiramente à frente, e a água verteu de baixo para cima, alcançando a boca e o nariz de nossa pequena. Ela esperneou e contraiu toda a face, em aflição. Tirei-a da água e fomos tentando nos refazer do susto. Eu ainda avaliava se ela tinha engolido água, enquanto realizava algumas manobras em suas costas a fim de que ela expelisse qualquer excesso. Foi quando ela fez beicinho e começou a chorar… Assim, de mansinho, devagarinho, em tom de queixa ressentida. Mas não demorou para entoar um choro a plenos pulmões, capaz de qualificá-la cantora de qualquer ópera. Ela caprichou na sustentação de um solo de 40 minutos contados no relógio. Àquela altura, a queixa tinha sido alçada ao status de veemente protesto, para surpresa e desespero de seus pais. Recorremos ao oxímetro para conferir a saturação de oxigênio, assim como a frequência respiratória. Tivesse ela se afogado, os parâmetros de respiração indicariam uma piora súbita. Mas tudo parecia dentro da normalidade. Investigamos os ouvidos, também sem qualquer sinal de alerta. Inspecionamos o corpo para afastar a hipótese de ter se machucado. Afastamos uma a uma as possíveis objetivas causas de tamanho lamento, mas o choro persistia. O pai já queria arrumar as malas e ir embora para o primeiro hospital. A mãe o convenceu a ligar para a pneumologista, sob a alegação de que saberíamos o que fazer. Prontamente atendidos, relatamos todo o fato e as providências. A médica nos tranquilizou sobre a conduta que adotamos e sobre o quadro de nossa filha. Mas, ainda assim, Alice expressava seu desconforto com incessantes lágrimas.

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Pouco a pouco, fomos nos acalmando. À medida que o corre-corre diminuiu, comecei a embalar nossa filha em meu colo, cantando as mesmas canções que eu cantava no período em que ela estava na Uti Neonatal. Ela começou a admitir intervalos no choro. Segui firme e mais confiante no embalo que a aconchegava, abri as janelas, mostrei os passarinhos, as árvores. Disse a ela que entendia que ela tinha se assustado muito com o episódio da piscina, assim como eu e seu pai. Que era mesmo muito ruim quando uma situação foge ao controle e nos coloca em risco, mas que estávamos juntas e íamos nos acalmar juntas. Disse a ela, ainda, que aquilo acontece com todo mundo que aprende a nadar, que eu mesma já tinha me afogado muitas vezes. Devo confessar que também imaginei que o ocorrido pudesse ter despertado nela a lembrança – consciente ou inconsciente – da parada cardiorrespiratória que teve aos dois meses de vida. Uma memória ruim daquela sensação de sufocamento. Pode ter sido um exagero meu, mas considerei essa hipótese enquanto intensificava ainda mais os meus carinhos. Quarenta minutos depois, os olhos inchados e vermelhos se distraíam com os passarinhos na copa das árvores enquanto suas mãos seguravam firme as minhas. Passou.

Depois, pensando naquele maremoto que nos atravessou, arrisquei algumas conclusões:

– ela esperneou muito enquanto a água subia pelo seu rosto. Pude observar que foi, inclusive, um movimento sincronizado de pernas, o que só confirma do que ela é capaz, a despeito de sua disfunção neuromotora.

– ao contrário do que muitos creem, ela manifesta com competência seus sentimentos, inclusive pelo choro, como pudemos comprovar. Se não recorre a essa forma de expressão no dia a dia, é porque se sente atendida e cuidada.

– nós (os pais da Alice) estamos razoavelmente preparados para lidar com situações extremas, de risco iminente, extraordinárias. Arrisco dizer que estamos calejados, alertas, equipados para as providências e os primeiros socorros. Mas fomos surpreendidos por uma situação absolutamente ordinária: uma criança que engole água na piscina e se assusta. E para esta não estávamos preparados. Contaminados que estamos pelas graves experiências anteriores, dessa vez carecemos de tempo para reconfigurar nossas ações e cuidar de nossa filha de maneira eficiente. Mas quando compreendemos o fato, apaziguamos o peito e nos abraçamos, os três, com cumplicidade e tranquilidade. E pudemos até rir de nós mesmos.

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