Só sorrisos

O sorriso de minha filha virou meu samba de uma nota só. Desde aquele 12 de dezembro, tudo o que pronuncio compõe o mesmo refrão. Até arrisco uma ou outra conversa, mudo o tema, resolvo os afazeres cotidianos, mas logo a lembrança daquele riso chama para si toda a urgência do meu coração.

Naquele dia, nós nos juntamos todos no banheiro – mãe, pai e cuidadora da Alice – como plateia de um aguardado espetáculo. Estupefatos, boquiabertos, extasiados, rimos e choramos sem tirar os olhos da pequena, que tomava seu banho matinal com grande satisfação. Minutos depois, ainda inebriados, alguém lembrou: filma, gente! Meu aparelho celular apareceu em minhas mãos trêmulas, liguei a câmera e mirei na direção da maior alegria que já senti.
Quando foi possível recuperar o fôlego, conversamos sobre o que havíamos presenciado. Revimos a cena inúmeras vezes, compartilhando percepções e sentimentos. Confusos, quisemos todo tipo de confirmação de que aquilo era mesmo um sorriso, não um espasmo. De que o extraordinário aconteceria daquela maneira, despretensiosa e generosamente.

Enviei o vídeo para a neurologista de minha filha, relatando o ineditismo do fato. Pedi que me confirmasse se era um sorriso, não um novo tipo de convulsão. Aguardei ansiosa pela resposta, que chegou certeira, confirmando o que já sentíamos: é um lindo sorriso! Dali em diante, foi massa de bolo no forno, ligações telefônicas, mensagens, abraços e rodopios em torno da boa nova.

No dia seguinte, procurei repetir o ritual do banho, acreditando que algum estímulo poderia novamente despertar o riso de minha filha. Como isso não aconteceu, cuidei para não me consumir novamente pelas apressadas expectativas. Ao invés de ansiar pelo novo sorriso, resgatei aquele que havia me comovido profundamente e compreendi que ele tinha a medida certa para a minha felicidade.

Quatro dias depois, precisamente ontem, estávamos sentadas em torno de diversos brinquedos com os quais Alice havia sido presenteada por sua tia. Eu mostrava a ela um a um, apresentando-a às cores, formas, sons e sensações que eles promoviam. Foi quando assoprei um gracioso apito. E, então, ela sorriu demoradamente. Apitei mais uma vez, mais uma vez ela sorriu. Eu poderia apitar o dia inteiro, a semana inteira, o ano inteiro anunciando o riso que resignifica uma vida. Mas agora sei que não faltarão outras tantas razões para que a pequena Alice vista nossa preferida alegoria da alegria. Ela nos farta e nos basta. Nesse ano, nosso Natal é, definitivamente, ato contínuo do sorriso de nossa filha.

O bolo feito em casa para uma singela celebração do primeiro sorriso da Alice, simbolicamente representado pelo sorriso do gato de “Alice no país das maravilhas”

O bolo feito em casa para uma singela celebração do primeiro sorriso da Alice, simbolicamente representado pelo sorriso do gato de “Alice no país das maravilhas”

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Uma resposta para Só sorrisos

  1. Gabriella Moreira disse:

    Muito bom!

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