Desenvolvimento visual atípico e uma abordagem terapêutica

Desde que publiquei um relato sobre os ganhos de visão da minha pequena Alice, diversas mães e pais entraram em contato buscando informações sobre a estimulação adequada para os casos de visão subnormal. Em função disso, a terapeuta visual da Alice, Simone Medeiros, gentilmente veio colaborar com o Diário, lançando luz a alguns esclarecimentos importantes e necessários sobre o tema.
Esperamos que possa ajudar muitas crianças, pais e mães na busca da qualidade de vida.
Obrigada, Simone!

Desenvolvimento visual atípico e uma abordagem terapêutica

Nascemos com pouca visão. A fase mais rápida do desenvolvimento visual ocorre no primeiro ano de vida, e o refinamento da função visual até a idade escolar, quando a visão da criança é semelhante à do adulto. A capacidade de VER e interpretar as imagens visuais depende fundamentalmente da função cerebral de receber, codificar, selecionar, armazenar e associar essas imagens a outras experiências anteriores. Para ver o mundo em formas e em cores é necessário uma integridade do globo ocular, das vias ópticas, do córtex visual e do exercício de VER. Pesquisas recentes relatam que bebês já nascem programados para enxergar do ponto de vista anatómo- fisiológico. Essa habilidade só será desenvolvida se realizar a experiência de VER. Portanto, a função é importante.
Anormalidades oftalmológicas estão presentes em 60% a 90% das crianças com Paralisia Cerebral, e baixa Acuidade Visual em até 70% delas. Em grande parte dos casos, o déficit visual é de origem cerebral, que produz déficits na entrada e saída do processamento da informação visual, modificando padrões de respostas e, como consequência, o desenvolvimento visual atípico. A perda da função visual pode ser de nível severo, moderado ou leve. Segundo estudos, ocorre principalmente em crianças com insulto cerebral grave e em prematuros.
Um diagnóstico precoce dessas alterações visuais, feito por oftalmologistas e em seguida encaminhado para um atendimento terapêutico especializado em baixa visão , possivelmente minimizará os fatores de risco que poderão intervir negativamente na reabilitação da criança com Paralisia Cerebral, com seus múltiplos comprometimentos. Um diagnóstico precoce possibilita uma intervenção precoce, com maiores possibilidades cognitivas, construídas para assimilação visual do que é oferecido.
Se o sistema visual está comprometido, a estimulação visual individualizada é necessária. Sabemos que a visão não é um sentido único, mas uma combinação de sentidos complexos. Mais que apagar e acender luzes coloridas, a Habilitação visual tem o propósito de combinar diferentes sentidos com experiências (visuais, motoras, proprioceptivas, auditivas, táteis e sociais) e uso da visão funcional, com grandes possibilidades de aumentar as conexões cerebrais através da capacidade de interpretar o que vê: ver consciente. Quanto mais experiências visuais, mais as vias ópticas são estimuladas, o que levará a um acúmulo maior de imagens visuais necessárias para uma interação significativa.
Todo o processo de amadurecimento visual parece lento na criança com disfunção neurológica, é dependente, entre outros fatores, da capacidade interativa dos pares, da estabilidade clínica e motivacional da criança. Assim como da compreensão familiar em agir como agente influenciador na participação efetiva da vida e nas trocas afetivas através do” jogo social” (primeiro sorriso…). Para tanto, os estímulos visuais precisam ser simples, isolados, de tamanhos e formas variados, com cores contrastantes, e, às vezes, com brilho e/ ou movimento. Importante também situar experiências visuais em rotinas diárias para adicionar a informação visual.
Compete-nos reconhecer a importância da visão, que é um processo cognitivo que envolve a conversão dos estímulos visuais em informações significativas para aquisição de conhecimentos e desenvolvimento de habilidades integradas para o desenvolvimento como um todo.
Infelizmente as informações da baixa visão na Paralisia Cerebral ainda são pouco exploradas por profissionais de diversas áreas. Dessa forma, exalta uma cegueira desnecessária, que impede de nortear condutas terapêuticas especializadas para subsidiar a reabilitação da criança com Paralisia Cerebral.

Simone Medeiros Brito de Oliveira
Fisioterapeuta Neurofuncional / Aperfeiçoamento na Baixa Visão
CREFITO 3054/4

simone

Anúncios
Esse post foi publicado em Artigos, Posts e marcado , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s