Olhos bem abertos

Um dos poucos esclarecimentos que tivemos acerca do quadro neurológico de nossa filha Alice logo que ela teve alta do Hospital foi que ela teria visão subnormal. A lesão instalada em seu cérebro afeta em cheio o campo viso-espacial. Era perceptível esta limitação. Ela não fixava o olhar em coisa ou pessoa alguma, não acompanhava movimentos, e, consequentemente, pouco interagia. Tivemos a sorte de sermos encaminhados em curto tempo a uma fisioterapeuta que faz um trabalho tão competente quanto surpreendente para a reabilitação da visão. Ela nos ensinou diversas atividades para implementar na rotina de nossa filha. Usar objetos grandes de cores contrastantes, preferencialmente preto e branco, ajustar a distância que cada um deveria ter de seus olhos, aguardar o tempo necessário para a pequena perceber e fixar o olhar, usar lanternas, brilhos, dentre muitas outras eficientes recomendações. Seguimos tudo à risca.
Lembro-me que o avô da Alice, parceiro que é do desenvolvimento da netinha, correu a uma loja de festas e a uma grande papelaria em busca dos papéis EVAs e dos objetos que pudessem compor a estimulação. Passamos uma tarde, eu e ele, caprichando nos detalhes para que fossem interessantes e eficientes para atrair o olhar e a atenção de nossa Alice. Divertimo-nos nessa terna tarefa de preparar sua espreita do mundo. Toda a família usou máscaras, tecidos, papéis e cores, num teatro que pretendia trazer nossa pequena para o centro da cena. E trouxe. Pouco a pouco, Alice foi se interessando, fixando o olhar, reparando, conhecendo e reconhecendo o mundo pela lente do nosso afeto. Cada espiada que ela dava abria as janelas do nosso peito para transbordar a alegria.
Recentemente, já vencida esta fase, Alice começou a manter os olhos quase fechados. Apenas uma nesga, uma fenda permitia a entrada da luz e tratava de sustentar seu contato visual com o mundo. Cuidadosa e atenciosamente, a fisioterapeuta visual nos explicou que, assim como o corpo de nossa filha sofre uma hipotonia, os músculos dos olhos também desenvolveram a mesma característica. Saímos do consultório com uma série de exercícios para a musculação dos olhos e o compromisso de retornar em quinze dias para repetir a avaliação. Novamente dedicamo-nos com afinco. Elevar as pálpebras é como um ballet: é preciso que Alice convoque toda a sua força e a sua persistência para, então, sustentar os olhos abertos com sutileza, beleza e leveza. Plié, elevé!
O resultado dessa estimulação que nos foi ensinada e reproduzida de maneira responsável, conscienciosa, oportuna e amorosa deve ser, mais do que contado, visto! Por isso, compartilho com vocês dois momentos de nossa pequena: um com as pálpebras quase fechadas, quando todos olhavam para ela e supunham que ela estava com sono, e agora com os olhos bem abertos, atentos, interessados em valsar nos poentes, nas auroras, nos jardins, nas brincadeiras, nos parques e, sobretudo, na companhia dos que lhe querem bem.
Nossa admiração e nossa gratidão a essa profissional que tem nos ensinado outra perspectiva para enxergar a vida.

olho aberto olho aberto

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