Falando com a pele

“Para ajudar os bebês a atravessar o deserto dos primeiros meses de vida, a fim de que eles não sintam mais a angústia de estar isolados, perdidos,
é preciso falar com suas costas,
é preciso falar com sua pele
que tem tanta sede e fome
quanto o seu ventre.
Nos bebês, a pele transcende tudo.
É ela o primeiro sentido.
É ela que sabe.
É preciso dar atenção a esta pele, nutri-la.
Ser levados, embalados, acariciados, pegos, massageados constitui para os bebês alimentos tão indispensáveis, senão mais, do que vitaminas, sais minerais e proteínas.
Se for privada disso tudo,
E do cheiro, do calor
E da voz que ela conhece bem,
Mesmo cheia de leite, a criança vai-se deixar morrer de fome.
Nos países que preservaram o profundo sentido das coisas,
as mulheres ainda se recordam disso tudo.
Aprenderam com suas mães e ensinarão às filhas
essa arte profunda, simples e muito antiga
que ajuda a criança a aceitar o mundo
e a sorrir para a vida.”

O trecho acima foi retirado do livro “Shantala, uma arte tradicional”, de Frédérick Leboyer (outro dia a Gisela Giannerini postou esse pedacinho final aqui no Diário também). Minha irmã me presenteou com esta leitura quando eu ainda estava grávida. Cada uma das palavras que li me preparou para preservar o vínculo com minha filha, apesar dos vidros da incubadora, dos aparelhos e do forçado afastamento. Por muitos e muitos dias, o toque de minha mão em sua pele fina, quente e frágil nutriu a nós duas de confiança e de afeto. Aos quatro meses de vida, já fora da incubadora, seu quadro ganhava contornos de estabilidade. Entre os inúmeros abraços e beijos que careciam da eternidade para falar do meu amor à Alice, nós também tivemos os momentos de massagem. Com uma música suave, um óleo aquecido em minhas mãos, nossa saudade se dissipava no encontro de peles. De tudo o que vivemos juntas no Hospital, essa é a única prática que até hoje permanece entre nós.

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