Eles passarão, ela passarinho

O médico levanta as imagens da ressonância contra a luz e corre os olhos atentamente. “Essa menina ainda vai me dar muito trabalho”. Foi a primeira frase que nos dirigiu ao interpretar o exame que mapeou o cérebro de nossa filha. Quantas vezes ouvi essa mesma expressão para predizer o futuro promissor de uma criança serelepe… em nosso contexto, ela antevia outro sentido. Na sequência, veio uma série de explicações técnicas, entremeadas por “ela vai ter dificuldade para andar e para falar”, “deve haver algum prejuízo cognitivo” e “não há mais nada a fazer, vocês estão oferecendo a ela tudo o que está ao alcance”. 
Nenhuma nova notícia nesse prognóstico. Talvez um pouco mais de aprofundamento acerca da extensão da lesão cerebral, viabililzado pela especificidade do exame. A novidade foi a maneira como lidamos com isso. Ouvimos tudo com atenção, preocupados com as terapias, os tratamentos e os medicamentos, mas a aflição em relação ao futuro não nos fez companhia. 

Atribuo essa mudança de comportamento a três compreensões fundamentais. A primeira é a de que a vida de nossa filha é um presente que veste todos os nossos dias de sorte. Controlar suas convulsões e livrá-la das repetidas internações, ou de qualquer outra situação que possa embutir sofrimento em sua vida, é nossa luta. Todo o resto é a urgência de nos amarmos e nos alegrarmos com as conquistas diárias, com o aprendizado que nos oportunizamos mutuamente. Aprendemos a nos atentar aos exames, mas, mais ainda, aprendemos a olhar nossa filha, profunda e intensamente. Ela nos mostra sua vontade de viver e, assim, renova também as nossas tantas vontades!

A segunda compreensão que nos acalma é aquela que diz da capacidade de o cérebro se reconfigurar, estabelecer outras conexões, desviar das lesões e encontrar outros caminhos. A isso chamam de plasticidade cerebral. Eu chamo de país das maravilhas. O cérebro da Alice é seu país das maravilhas. É terreno fértil para os absurdos e os despropósitos cultivados pela estimulação e pelo afeto. Cada uma das possibilidades que ele descortina vem mais carregada de poesia do que de bom senso. Cada uma das descobertas de nossa filha nos faz pasmar diante da capacidade de transformação da vida. E como somos gratos por isso!

A terceira compreensão que nos preenche – e talvez seja a mais importante – é a de que minha filha não precisa superar nada, não precisa surpreender expectativas. Jamais permitiremos que esse fardo pese sobre sua existência, especialmente sobre sua infância. Ela precisa tão somente viver, desenvolver-se em toda a sua capacidade de maneira a fazer brotar o entusiasmo. Como deve ser com todas as crianças. Às vezes, dizem-me, com carinho e acolhimento, que minha filha será um caso de superação. Eu me alegro e também renovo minha crença de que Alice se reinventa todos os dias. Mas esclareço: não quero que minha filha seja um caso de superação. Quero, sobre todas as coisas, que minha filha seja, continue sendo, um caso de amor.

"Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão, eu passarinho".  Mário Quintana

“Todos estes que aí estão atravancando o meu caminho, eles passarão, eu passarinho”.
Mário Quintana

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