Ação, reação e emoção

Minha filha vem despertando para o mundo de mansinho. Quando veio para casa, depois de cinco meses na UTI Neonatal e já acometida por extensa lesão neurológica, parecia entorpecida pelo sofrimento. Não esboçava qualquer reação. Seus olhos boiavam sem rumo. As pernas e os braços eram inertes. Havia abdicado até mesmo do choro. Aquela penosa experiência de início de vida parecia ter anestesiado suas emoções.
À medida que sua resignação teve a patente confiscada por nosso investimento amoroso, o choro de minha filha estreou sob aplauso. Suas lágrimas começaram a protagonizar demonstrações diversas de desagrado, as quais foram celebradas por nós. Lembro-me de uma gasometria, à qual Alice foi submetida, em função de uma bronquiolite, meses depois de sua alta. Trata-se de um exame muito dolorido, pois o sangue é colhido na artéria e não na veia. Alice chorou alto, urrou, estremeceu o andar do Hospital, e permaneceu choramingando, sentida, por alguns minutos depois. Eu e o pai dela, mesmo sofrendo pela dor de nossa filha, não conseguíamos esconder a satisfação e a alegria por toda aquela eficiência na comunicação de sua emoção.

Pouco a pouco, com muito trabalho e esforço, suas pernas e seus braços também se anunciaram, cambaleantes, mas decididos a conquistar o mundo. Seu olhar, que há muito já acompanha os objetos, agora fita os nossos olhos, revelando a mais pura doçura. E o sorriso, atração muito aguardada, começa a dar sinais. Singelo, tímido, enigmático, aristocrático, delicado. Qualquer que seja o adjetivo, está destinado a lapidar sua expressão de contentamento.

Ao ser apresentada a esse mundo interessante e prazeroso, Alice iniciou a viagem que a projeta de dentro de si para todos os lugares que desejar. Cada nova descoberta recria os momentos já vividos pelas lentes do amor e do deleite. Nosso entendimento mútuo está cada vez mais afinado e nossa interação, mais intensa, surpreendente e emocionante. Um piscar de olhos, um movimento sutil de braço ou de perna, um giro de cabeça, uma projeção nos lábios, um suspiro ou um choro: o repertório da Alice vai se ampliando e nos convida a aguçar nossa percepção cotidianamente, longe de qualquer acomodação. Então, acontece aquele momento que afasta qualquer dúvida e nos arremessa no colo da emoção e da esperança. O momento que comprova o entendimento, a interação, a cumplicidade e a confiança. É este momento em que a vida se renova que compartilho com vocês.

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