A boneca encantada

Lígia é uma moça de 20 anos, bonita, dona de uma irreverência e um senso de humor aguçados, torcedora fervorosa do Atlético Mineiro, curiosa e carinhosa. Dentre tantas características que a distinguem, ela também tem paralisia cerebral. Mas sua fala pastosa e sua locomoção por meio da cadeira de rodas não são o que primeiro se nota quando ela se apresenta. Ela provoca encantamento imediato por sua capacidade argumentativa, seus cabelos brilhantes e a espontaneidade de seu sorriso. Numa roda de conversa, é a principal mediadora: propõe assuntos, provoca e brinca com uma desenvoltura ímpar. Tempos depois tive o privilégio de conhecer sua história, assim como sua amorosa família, o que adicionou ainda mais admiração ao meu sentimento por ela.

Aconteceu de morarmos no mesmo prédio. Lígia acompanhou minha gestação e o nascimento de minha filha com genuíno interesse. Quando soubemos do diagnóstico de paralisia cerebral de minha Alice, ela e seu pai lançaram para mim um olhar de cumplicidade e compreensão que me aninhou no colo da serenidade. Começaram a falar do assunto comigo com naturalidade, em diversas oportunidades. Perguntavam quais habilidades Alice vinha desenvolvendo e traçavam um paralelo com o desenvolvimento da Lígia, sempre com a invejável capacidade de rir de si mesmos.

Dia desses, Lígia veio nos fazer uma visita. Quando entrou em minha casa e se colocou frente a frente com minha pequena Alice, senti que ela encarava seu passado. Eram muitas as coincidências que ela ia me revelando. Os bancos terapêuticos, os brinquedos e as propostas de estímulos, as terapias… Ela havia aberto a porta da memória e me convidava a revisitar sua história de coragem, de vivacidade e de amor. Mas, para mim, a porta que se abriu foi a do futuro. Entrei com a imaginação a reboque e alegrei-me ao supor que minha Alice poderá, quem sabe um dia, também contar sua história com aquele sorriso e com aquela alegria que expressam a vitória da satisfação.

Do encontro entre passado e futuro, nasceu um presente. Veio com cores contrastantes para atrair o olhar da Alice. Nem precisava. Saltam da tela a beleza, a doçura e a força. Lígia dedicou um quadro para sua mais nova amiga. Pintou, com pincéis e com os dedos, uma boneca. Emoldurou sua imagem e semelhança como testemunho irrefutável da beleza da vida. Aquele quadro, que agora acompanhará onisciente o crescimento da Alice, reorganizou nossa realidade sob as óticas da graça, da leveza e da ternura.

De Lígia para a Alice, uma boniteza...

De Lígia para a Alice, uma boniteza…

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