A pequena sereia

No último final de semana, fizemos um passeio para nos religar à natureza. Distanciamo-nos de qualquer aspecto que pudesse nos lembrar de doença, remédios ou hospital. Apenas a bala de oxigênio, incluída na bagagem como precaução, era indício de um cuidado atípico. A ida para um hotel fazenda funcionou como uma espécie de alta da família. Assumimos a direção de nosso passeio, olhamos uma longa e bela estrada à nossa frente e percebemos os perigos e as ameaças à vida de nossa filha ficando para trás no retrovisor. Desconfio que esta constatação tenha sido um sussurro que o escritor mineiro Guimarães Rosa nos soprou aos ouvidos quando pisamos em sua terra, Cordisburgo (MG). “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”, ele disse. Aventuramo-nos, portanto, nessa travessia de descobertas, a principal delas o nosso grande amor, nossa filha.

Vivenciamos um sem número de novidades! Pai e mãe adquirindo a confiança de cuidar da filha longe do aparato de casa; enquanto nossa pequena Alice se deleitava com cada pedacinho de mundo que se revelava a ela. Seus pés se conectaram à terra, à grama. Suas mãos encontraram a crina de um cavalo. Seus olhos se ajustaram à tamanha luminosidade e perceberam outros tantos tons de verde. Os passarinhos se aninharam em seus ouvidos. Seus pulmões foram arejados pela leveza. Uma vivência tão prazerosa despertou em nós um único e pulsante desejo: o de que nossa travessia seja longa o bastante para nos fartarmos da simplicidade da vida.

Houve um momento, em especial, que batizou nossa experiência com o nome confiança. Alice entrou, pela primeira vez, em uma piscina. A água morna, as mãos de seu pai e o meu olhar de mãe envolvendo e conduzindo seu corpo àquela sensação prazerosa. A água em abundância aliviou qualquer peso que se sobrepusesse sobre seu corpo e uma serelepe ondulação brotou de suas pernas. A assunção de seu movimento autônomo, imerso na água, era metáfora da própria vida. Da necessidade de mergulhar fundo nos desafios que nos envolvem até o pescoço e, nos recônditos da consciência, buscar o impulso necessário para fazer emergir o próximo movimento, aquele que nos conduz à beleza dos caminhos possíveis. Alice penetrou no improvável, mas seu desejo de vida fluiu vibrante na esperança que, dali em diante, saberá muito bem onde atracar. Mais do que sabe, ela sente assim. Enquanto experimentava a piscina, ela estampou um discreto sorriso no rosto. Enigmático, faria inveja a Monalisa. Arrisco decifrá-lo, imaginando ela dizer: Eu posso! Eu gosto do que posso! E silenciosamente respondo a ela: Eu gosto! E por isso posso muito mais por você e com você!

Voltamos para casa entusiasmados por nossa condição de aprendizes de uma travessia que busca rimar cumplicidade, simplicidade e felicidade. Queremos mais e, agora sabemos, podemos mais!

(o vídeo mostra Alice, com a zelosa ajuda de seu pai, brincando na piscina. Ela também contou com o suporte de uma bóia de pescoço, que recomendo não apenas aos bebês com paralisia cerebral ou deficiência, mas a todos os bebês que queiram se aventurar em águas calmas. Sempre, é claro, acompanhados de seus pais ou um adulto responsável. Desculpem-me pela baixa qualidade do vídeo, mas também nesse quesito sou aprendiz).

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