Frágeis pulmões

Antes de ter uma filha prematura, imaginava que o principal desafio de um bebê nascido pré-termo era o ganho de peso. Pensava que era só ficar ali, quentinho na incubadora, e com uma dieta adequada, para acumular o primeiro quilo necessário à alta. Mas não é. O organismo todo daquele ser que acaba de nascer antes da hora é imaturo. Isso envolve riscos para o coração, para o cérebro, para o intestino, para os olhos, para o sistema imunológico, os quais são potencialmente agravados pelo baixo peso. Especificamente o pleno funcionamento dos pulmões, último órgão a ser formado, impõe uma grande batalha.
Logo que nasceu, minha filha precisou ser intubada. Uma cânula de fino calibre, ajustada à sua milimétrica traquéia, foi introduzida por sua boca. Ela também recebeu duas doses de surfactante. Trata-se de um líquido que atua nos sacos de ar dos pulmões, os alvéolos, para permitir a respiração. Como minha pequena nasceu com 29 semanas, foi necessário ministrar artificialmente o surfactante, juntamente com o suporte ventilatório do tubo, que garantia a oferta de oxigênio e de pressão, para abrir seus pulmões. Se por um lado o procedimento é salvador, por viabilizar a vida, por outro envolve riscos. Alice teve uma hemorragia pulmonar severa, decorrente desse esforço para abrir os pulmões.
Contornada a primeira intercorrência, inúmeras outras se sucederam, impondo a necessidade de suporte ventilatório por meio do tubo por mais tempo. A equação permanecia frágil: o tubo mantém a vida, mas também causa dependência de oxigênio. Funciona mais ou menos assim: quanto mais tempo intubada, mais tempo será necessário para conseguir respirar sozinha. Portanto, a retirada do suporte ventilatório é feita gradativamente, passando por diferentes aparelhos, do mais invasivo ao menos invasivo. Por ter permanecido mais de 60 dias intubada, entre idas e vindas, Alice teve alta ainda fazendo uso de oxigênio, pois desenvolveu broncodisplasia pulmonar. Fomos para casa: mãe, pai, Alice e a bala de oxigênio.
Para tomar banho, para dormir, para comer, a todo momento havia um sopro em suas ventas. Carregávamos a filha num braço e puxávamos a bala, seu apêndice pulmonar, com o outro. Era um anúncio material, concreto, explícito, da fragilidade da vida que num sopro se faz e num suspiro se apaga. Incorporamos a bala de oxigênio ao nosso cotidiano. Grande e robusta, ela parecia denotar um desafio desproporcional às condições da pequena Alice. Mas quem disse que é preciso ser grande para ser forte? Dois meses depois da alta, aos sete meses de vida, nossa filha se livrava daqueles fios, daquele peso, e podia respirar e transitar livremente.
Avançamos para a contenda seguinte: imunização contra as doenças respiratórias, haja vista a fragilidade dos pulmões que a acompanhará por longo período. Tais cuidados não foram suficientes para evitar as gripes, viroses e bronquiolites, todas acompanhadas do retorno da bala de oxigênio. Somamos três internações hospitalares, a última delas há duas semanas, para socorrer os ressentidos pulmões da Alice. Inconsoláveis, ainda hoje eles choram a prematuridade e se encharcam de mágoa. Resta-nos a peleja confiante no poder restaurador do tempo que amadurece e fortalece. É por acreditar nisso que venho guardando cada uma das pulseiras de internação da Alice. Vou colecionando esperanças para mostrar a ela, num breve futuro, que sua força foi maior que a doença, porque ela soube renovar o fôlego na coragem que a impulsiona adiante.

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