Um brinde ao crescimento!

Venho notando um certo desinteresse de minha filha pela mamadeira. Se antes sugava em quantidade e qualidade o leite que oferecíamos, agora não demonstra grande vontade. Nem mesmo as vitaminas de mamão, manga ou pêra, frutas de sua preferência, parecem provocar sua investida.
Preocupei-me. Apesar de a sucção ser um reflexo com o qual nascemos, Alice precisou reaprendê-lo durante sua internação na UTI Neonatal. Nos seus primeiros dias, ela se alimentava por sonda. Invariavelmente, sugava o tubo que apoiava sua respiração, exercitando o reflexo, mas sem qualquer resposta prazerosa. Com o passar do tempo, e dada a lesão cerebral decorrente da parada cardiorrespiratória sofrida aos dois meses de vida, ela foi perdendo esta capacidade. O que antes era reflexo, naquele momento se tornou habilidade a ser reconquistada. Mais do que eu, o pai da Alice lutou muito por isso. Filmou a filha em diferentes horários, reuniu-se com a equipe médica para garantir a adequação do atendimento fonoaudiológico, deu mamadeira por conta própria… tudo com muita paciência e persistência, apoiando a filha no resgate da sucção e, consequentemente, na capacidade de se alimentar sem sonda, o que era nosso passaporte para casa.
Já em casa, embora conseguisse sugar, nossa pequena resistia muito à mamadeira. Explicaram-me que isso se devia ao fato de ela ter ficado muito tempo com um estímulo oral não-prazeroso – o tubo para a respiração -, e que, portanto, era preciso desenvolver gosto pela mamada. Travamos uma luta, eu e ela, durante cerca de um mês. Ela virava o rosto, empurrava, tinha taquicardia a cada três horas, quando era preciso lhe oferecer a mamadeira. Eu insistia, buscando repertório novo a cada dia, na tentativa de ajudá-la a descobrir o prazer de se alimentar. Vencida esta etapa, o desafio da sucção foi renovado pelo refluxo, pelos vômitos e náuseas decorrentes da medicação controlada para convulsão. Mais um mês se passou, alguns ajustes de medicamentos foram feitos e, aos sete meses, minha filha, finalmente, começou a mamar vigorosamente, nutrindo-se de bem estar.
Por isso, seu gradativo desinteresse pela mamadeira me soou como alerta. Logo conversei com a competente fonoaudióloga Carla (para nós, Cacá) que a acompanha, que me esclareceu que este é um processo natural. Os dentes estão nascendo, ela passou a fazer excursão pela boca com a própria língua, começou a mastigar… é esperado que se interesse cada vez menos pela sucção. Surpresa: é esperado? Que alegria!
Pois bem. Acatamos a vontade manifesta da Alice. Bati um suco de manga mais grosso, coloquei no copinho, e a Cacá ofereceu a ela com alguns cuidados. Um gole seguido de outro, coordenados com sua fome pela vida, ela se deleitou com a nova proposta tão desejada. Combinamos, então, uma transição suave da mamadeira para o copo, mantendo as duas alternativas até que possamos fazer a troca com segurança. De lá pra cá, quando ofereço a mamadeira, minha filhota dedica alguns minutos à recusa e espera que eu coloque um pouco no copinho para que experimente beber. Só depois de cumprir esse ritual é que ela aceita sugar o restante do leite. O fato me provoca dupla satisfação: a materialização do desenvolvimento saudável de minha filha por meio da troca gradual da mamadeira pelo copo, e a manifestação voluntária, intencional de sua preferência. É como se dissesse: de agora em diante, nada me descerá “goela abaixo”, vou sorver da vida o que eu escolher! De minha parte, concordo e vibro!
A emoção se completou quando ouvi a Cacá dizer em alto e bom som: “Parabéns, Alice! A gente não nasce sabendo mastigar, este não é um reflexo. É uma habilidade que a gente aprende. Você conquistou esta habilidade”! E a gente que se engrandece com as pequenas conquistas do dia a dia só tem vontade de levantar os copinhos e brindar: tim tim!

Nas fotos, Alice, com seu pai e sua mãe, reaprendendo a sugar. Depois, mais recente, lambuzada de comida. Embora ainda não consiga segurar objetos com firmeza, a colher de comida está entre as coisas que ela mais se esforça para conseguir manter junto a si.

Nas fotos, Alice, com seu pai e sua mãe, reaprendendo a sugar. Depois, mais recente, lambuzada de comida. Embora ainda não consiga segurar objetos com firmeza, a colher de comida está entre as coisas que ela mais se esforça para conseguir manter junto a si.

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