Brincar é objetivo, estimular é consequência

À medida que minha filha vai crescendo, vamos ganhando aprendizado e experiência sobre as possibilidades de interação e estimulação junto a ela. Os competentes profissionais que a acompanham nos orientam cotidianamente, de tal forma que a própria rotina se tornou terapêutica. O banho, a troca de fraldas, a alimentação, o sono, as brincadeiras são cuidados assumidos amorosamente e somados a uma atenção diferenciada com as posturas e os posicionamentos, para que minha filha possa se desenvolver em todo o seu potencial. Oportunizar a experimentação e a vivência daquilo que ela ainda não (re)conhece como possível é renovar, dia após dia, a crença na sua capacidade de se reinventar. É recusar pressupor os limites dados pela lesão cerebral, e dar a ela o poder de se manifestar no seu tempo, no seu ritmo, na sua crescente possibilidade.

Todo esse trabalho para remodelar o cérebro de minha filha modificou também o meu. Meu pensamento, agora, tem como matéria-prima o inusitado. Entreguei-me a um exercício divertido de conferir significados e sentidos não convencionais aos objetos cotidianos, posto que os brinquedos tradicionais dificilmente são adaptados às necessidades dela. Entro num supermercado para comprar cabides e guardanapos para a casa, e saio com bobes de cabelo e luva de cozinha para Alice. Os bobes são maleáveis e tem uma textura mais interessante para as mãos de minha filha do que para meus cabelos. A luva de cozinha, com um lado preto e branco e outro vermelho, pode ser pendurada e, com a luz da lanterna projetada, teremos um cinema como antigamente, capaz de atrair o olhar mais atento da Alice. Já não me interesso mais por discretos colares em meu pescoço. Prefiro os grandes e coloridos, com diversas formas, para que ela possa aprender a segurar com beleza e interesse. Qualquer objeto que cruze meu caminho está arriscado a ter sua monótona função original confiscada, e assumir o papel de alegre companhia no crescimento de minha filha.

Temos tido contribuições de muita gente nesse sentido. A terapeuta ocupacional gentilmente nos cedeu o estandarte, uma estrutura que funciona como plataforma para estimulações sensoriais diversas. Adquirimos bancos terapêuticos, que estão ganhando revestimentos de diversas texturas pelas mãos do habilidoso avô da Alice. Uma tia comprou um tapete antiderrapante, que em vez de adornar o banheiro, cumpre a gentil missão de acariciar os pés da pequena com novas sensações.

Por fim, no dia de seu primeiro aniversário, ela ganhou um quarto que reúne todos esses objetos e seus novos usos em um espaço agradável, arejado, colorido e especialmente pensado para ela. Ideia de seu pai. Feliz com nosso feito, comentei com minha irmã que sua sobrinha agora tinha um quarto de brinquedos e estímulos. Ela comemorou e emendou assertivamente: o quarto é de brinquedos e brincadeiras, nada de estímulos. De fato. Criamos um lugar adaptado às necessidades da Alice com a finalidade de assegurar a ela o que é direito de toda criança: brincar. Suspeito que muitos adultos, motivados por ela, também se divertirão nesse ambiente. E enquanto reafirmamos nosso compromisso com a alegria e o encantamento de sua infância, ela ensaia sua autonomia. Brincar é o objetivo, estímulo é consequência e felicidade é resultado. 

quarto

Este é o quarto de brincadeiras da Alice

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