Paternidade é bão demais!

Publico, hoje, a quarta história de amor em homenagem a todos os pais que têm escuta atenta a seus filhos, e que acham a paternidade “bão” demais! Em especial, ao pai da Alice, um paizão.

A história é de minha irmã, Lorena Luiza Costa Rosa Nogueira, tia da Alice, que aqui empresta sua sensibilidade para nos lembrar do essencial: os sentimentos elevados não só pelos filhos, mas pela profissão que cada um escolhe abraçar. Obrigada, Nena!

“Certo dia, no exercício da minha profissão, aproximei-me da sala de espera e chamei para atendimento um paciente agendado para realização de exames auditivos e posterior adaptação de aparelhos de audição. Levantou-se com dificuldade um sujeito magro, lá pelos seus 30 anos, vestido de forma muito humilde, que acompanhou os meus passos agitados, movimentando o mais rápido que podia uma muleta. Estava desacompanhado, e, na correria do dia a dia, só no meio do caminho percebi a sua dificuldade, diminuindo então o passo para que pudesse me acompanhar. Já sentados, iniciei a entrevista corriqueira a fim de buscar informações sobre o seu problema e proceder a avaliação.
Revelou-me ter perdido a audição há três anos, vítima de meningite e de dezoito episódios de convulsão. A conversa fluiu de maneira custosa, uma vez que não me compreendia bem, ainda que me esforçasse por fazer um gestual rico, buscando favorecer a compreensão por outros meios que não a audição. Ele mantinha uma fala pastosa, como quem está embriagado, não que o estivesse, mas, porque a perda da audição começara a lhe deteriorar a fala. Revelou-me ter estudado até a 5ª. série do ensino fundamental, ter esposa e um filho de três anos, nascido três meses antes de ser acometido pela doença que lhe privou do sentido da audição.
Fez questão de tirar do bolso um saquinho de supermercado, no qual guardava enrolados, além dos seus documentos, uma foto do filho ainda bebê. Mostrou-me com um sorriso nos lábios e disse em tom orgulhoso: “esse menino é a minha vida, se sobrevivi a tudo que passei foi por ele!”. Sorri engasgada. Contou-me ainda que não trabalhara desde a instalação da doença, tendo em vista as seqüelas, não só auditivas, mas também motoras, e que mantinha a família com o benefício do INSS. A conversa se estendeu por mais algum tempo, até que culminou com a seguinte pergunta minha: “que expectativa o senhor tem em relação aos aparelhos de audição?” Após repetir várias vezes e de diferentes maneiras, ele finalmente me compreendeu e respondeu: “ai, doutora, o meu sonho é escutar a voz do meu filho! Preciso trabalhar e escutar a voz do meu filho”. Sorri novamente e baixei a cabeça para fazer as minhas anotações, temendo que ele pudesse identificar em meu rosto a emoção que me despertara.
Tratei de encaminhá-lo logo à cabina para realização dos exames necessários. Concluí que a meningite havia lhe deixado de herança uma surdez severa, conforme já suspeitara durante a nossa conversa. No entanto, alegrou-me a boa notícia que poderia lhe dar. Disse-lhe que teria benefício com os aparelhos auditivos e que havia grandes chances de que lhe favorecessem profissional e pessoalmente. Ele balançou a cabeça como fazem aqueles que mal podem acreditar no que lhe falam e disse: “ai, que bom….eu vou escutar o meu filho? Acenei positivamente e ele não pode conter o choro…
Ainda antes de ir embora disse-me com os olhos marejados: “desculpe-me, doutora, ficar falando da minha vida pra senhora, obrigado pela sua atenção e pelo seu trabalho”. Bati em suas costas desejando-lhe boa sorte e almejando vê-lo após a adaptação dos aparelhos auditivos. Já de saída, voltou-se novamente para mim e perguntou: você tem filhos? Diante da minha resposta afirmativa exclamou mineiramente e de boca cheia: é bão, né?! Saiu dali mais feliz do que entrou, deixando-me a sensação prazerosa do dever cumprido. Talvez nem imagine os sentimentos que me despertou. Aquele homem tão humilde, possivelmente criado com tanta privação, teve acesso ao principal! Vivências como esta nos acenam para a necessidade de cultivarmos e valorizarmos em nós mesmos e em nossos filhos o essencial da vida: sentimentos elevados, capazes de nos mover mesmo na ausência de qualquer recurso material ou diante de possibilidades físicas limitadas. Meu desejo era voltar àquele momento para dizer àquele homem: “eu é que lhe agradeço!”

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