Saudação ao tempo

Devo confessar que só aprendi a lidar com o tempo quando minha filha ficou prolongadamente internada na UTI Neonatal. Comecei contando quantos segundos ela demorou para chorar ao ser retirada do meu útero. Depois contei aflita os minutos que se arrastaram até que conseguissem dar a ela o suporte respiratório por meio do tubo. Em seguida, as horas pesaram sobre minhas pernas, atrasando o momento em que eu me colocaria de pé para conhecê-la na UTI. Dali pra frente, os dias se sucederam ignorando minha expectativa e adiando nosso íntimo aconchego.
No início, parecia inevitável tentar estimar quanto tempo faltava para que ela tivesse alta. Planejei esse momento semana a semana, enquanto a esperança tratava de renegociar o prazo. A cada intercorrência eu me punha a imaginar quanto tempo faltava para que minha filha transpusesse aquele desvio de rota e pudesse tomar o rumo de sua casa. A duras penas, compreendi a inutilidade daquele exercício que causava decepção e angústia, e me fazia refém.
Fiz as pazes com o tempo. Ele deixou de subtrair-nos os dias passados e inaugurou a soma de cada segundo à esperança do que estava por vir, apesar de tudo, ou por causa de tudo. A frustração cedeu lugar à gratidão. Não contava mais o tempo que faltava, mas o tempo que preenchia nossa história com conquistas e nos fortalecia.
A cada mês, portanto, celebrei a vida de minha filha, mas também saudei o tempo, que havia se tornado nosso aliado. Foram quatro comemorações no Hospital, com toda a equipe da UTI Neonatal. Eu imaginava e preparava cada mimo como quem cuidava da própria filha. Os pães de mel, as balas e os docinhos foram os mensageiros do carinho que eu não podia dedicar diretamente a ela. Então eu cuidava de quem podia cuidar dela, agradecia por isso com açúcar e com afeto. E acenava para o tempo.

Esta caixinha aí da foto levava dois beijinhos, aquele docinho de leite, uma para cada profissional da UtiNeonatal. Mesmo sem saber, nesta ocasião, começávamos a nos despedir do Hospital.

Esta caixinha aí da foto levava dois beijinhos, aquele docinho de leite, uma para cada profissional da UtiNeonatal. Mesmo sem saber, nesta ocasião, começávamos a nos despedir do Hospital.

 

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