O primeiro dente e uma nova comunicação

Ontem minha filha tratou de alertar que os primeiros dentinhos estão apontando! Mais do que celebrar a graciosa novidade que vai aparecer, comemorei seu choramingo. Desconfiava que a primeira dentição estava começando, pois Alice vinha salivando muito. Higienizei as mãos, toquei sua gengiva, e a sensação foi de uma serrinha a fazer cócegas nos dedos. Mas preocupava-me com o fato de ela, até então, não ter reclamado a dor do crescimento.

De fato, ela é um bebê que pouco chora. Quando acorda à noite, em vez de chorar, ela estala os lábios para avisar que está com fome. Quando precisa realizar exame de sangue ou tomar vacina, ela contrai o rosto para denotar sua dor. Quando sente qualquer desconforto – cólica, náusea, constipação – ela solta alguns gemidos, a conta-gotas. Embora faça uma permuta entre o choro e outras maneiras de manifestar o que sente, a minha tarefa de avaliar a intensidade do incômodo exige um pouco de intuição.
Por isso comemorei quando ela esperneou, inquietou-se, fez beicinho e chorou para mostrar que os dentinhos estão rompendo sua gengiva. Ao que parece, eles vieram aguçar sua fome pela vida, posto que ela tratou de incrementar sua comunicação com o mundo. Tal acontecimento me fez pensar o quanto a expressão adequada do que não nos apraz possibilita assumirmos as rédeas da própria vida, no lugar de nos sujeitarmos às condições adversas. Comunicar nossa insatisfação é um jeito de nos libertarmos do que nos limita, do que nos submete. Começamos dando o grito, choramingando, fazendo beicinho e, daí a pouco, inúmeras outras ferramentas vêm compor nossa maneira de nos colocar diante da vida. Pois se não o fizermos, alguém o fará por nós, colocando em risco nossa capacidade de autonomia.
Era isso o que eu temia ao pressupor a dor que minha filha não manifestava claramente. Ela tratou de me tranquilizar: sabe muito bem o que sente e o que quer, só precisa de um pouco de tempo para elaborar e diversificar suas afirmativas, descobrindo a si mesma. No fim das contas, nesse episódio da aparição dos dentes, com o perdão do trocadilho, quem estava babando era eu, de satisfação!

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