Compromisso com a felicidade

Reencontrei um casal de amigos muito queridos, com quem a conversa é sempre prazerosa, permeada de bom humor e aprendizado. Conversamos sobre trabalho, viagens e, obviamente, filhos. Com a experiência de seus cabelos brancos e do cuidado de uma filha portadora de doença rara, eles fizeram de nosso encontro um afago, um carinho, uma emoção. Das partilhas que nos permitimos, uma delas me sacudiu, indelével: “você tem que tratar de ser feliz, nem que seja por necessidade. Se você não for feliz, não poderá dar a sua filha tudo de que ela precisa”.

Fato é que eles foram embora, mas me deixaram na companhia desse alerta, do qual não pude me desvencilhar. Porque antes de ser feliz, a gente precisa ser capaz de ser feliz. Ser capaz de ser feliz é um ato de coragem e é muito mais trabalhoso do que ser triste. Foi o que assimilei da fala generosa de meus amigos.

Preciso ter coragem de ser feliz no meu trabalho, com os desafios e as realizações profissionais a que me proponho, sem medo de enfrentar todas as tentativas de recomeço que se fizerem necessárias para fugir da acomodação que não preenche, ainda que pague as contas. Preciso ter coragem de ser feliz na rotina partilhada com o marido, na brincadeira com os sobrinhos, nas conversas com as irmãs sobre os casos de ontem e de hoje, no deleite da macarronada de domingo de meu pai, nas lembranças contidas no álbum de retratos de minha mãe. Preciso ter coragem de ser feliz encontrando tempo para ler aquela poesia esquecida na gaveta, aquele livro guardado para depois. Preciso ter coragem de ser feliz com os amigos, fora dos consultórios médicos, da administração de medicamentos, da estimulação incessante de minha filha. Preciso ter coragem de ser feliz na espontaneidade dos beijos e abraços distribuídos sem qualquer outra intenção que não seja acolher e ser acolhida. Preciso ter coragem de ser feliz cuidando de minha saúde, do meu corpo, da minha mente. Preciso, enfim, ter coragem de ser feliz amando a mim mesma, diluindo a culpa e o medo nas merecidas alegrias cotidianas.

Equilibrando escolhas e renúncias, a maternidade se reafirma como o caminho mais importante para a felicidade, mas não o único, para o meu bem e, sobretudo, para o bem de minha filha. Mais ainda, saber-me mãe poderá ampliar minhas chances de felicidade porque o cuidado, a cumplicidade, a solidariedade e a empatia elevarão a qualidade da minha relação com o outro.

E, assim, vestindo-me da coragem de ser feliz, darei a minha filha aquilo de que ela precisa: a certeza de que é possível crescer saudável física, emocional, integralmente, a despeito das intercorrências, das intempéries, das limitações. Ou por causa delas, por colorirem com originalidade e beleza a nossa trajetória. Esse é um pacto que nem eu, nem ela podemos negligenciar, pois temos um compromisso inadiável com a felicidade.

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