Dos umbigos e suas conexões

A Maria Isabel da Silva, mãe do Davi e leitora do “Diário”, pediu que eu contasse como foi a gestação de minha filha. Então aí vai:

Meu desejo de ser mãe começou muito antes de ter uma vida brotando em meu ventre. Começou quando me vi filha. Minha mãe tinha um jeito muito próprio de cuidar, um jeito que me fazia valente para os enfrentamentos da vida, porque eu nunca me sentia só. Eu achava aquilo de uma beleza tão grande que, antes mesmo de saber a profissão que eu abraçaria, já havia decidido que um dia também seria mãe. Depois de seu falecimento, essa vontade ficou ainda mais forte e vi na maternidade desejada desde sempre uma maneira de perpetuarmos nossa conexão, nossa ligação interrompida precocemente. Desconfio que ela teve a mesma opinião que eu, pois eu soube que estava grávida no dia exato em que se completava um ano de sua morte. Era a senha para acessarmos sua alegria de novo.

Notícia muito festejada por toda a família, começava a jornada. Eu tenho trombofilia, uma herança genética que faz com que meu organismo esteja mais propenso a desenvolver trombos, especialmente na presença do hormônio feminino. Não fosse o risco envolvido nessa característica, poderia até dizer que fui dotada de uma forte capacidade de cicatrização das feridas da vida, em todos os aspectos. A própria vida que eu começava a gerar era a cura para uma saudade instalada.

Ciente disso, minha gravidez foi planejada, desejada e muito cuidada. Tomava uma picada diária na barriga do anticoagulante, que eu mesma aplicava. Era uma forma de cutucar meu corpo para lembrá-lo de que, naquela situação, não havia o que cicatrizar, era preciso deixar a vida fluir. Fiz todos os exames do pré-Natal em intervalos mais curtos e repetidamente.

Às 19 semanas de gestação, precisei ser submetida a uma cirurgia de alto risco para mim e para a minha filha, que, àquela altura, já se sabia ser Alice. Um mioma, até então inofensivo, fora do útero, havia crescido desproporcionalmente, girado em minha pelve e obstruído meu intestino e minha bexiga. Deitei na mesa de cirurgia com a orientação inquietante do médico de priorizar primeiro a minha vida, depois o meu útero, depois a vida de minha filha. Pensei em minha mãe e renovei a promessa à minha filha de que nem eu nem ela ficaríamos sós. Após a cirurgia, a sensível equipe médica me fez ouvir o coração de minha filha batendo forte. Naquele momento eu soube que estávamos, as duas, desejosas de nosso encontro e dispostas a lutar por ele.

Às 24 semanas, comecei a ter insuficiência de placenta. Encarei um repouso forçado, deitada de lado para facilitar a circulação de sangue para minha filha. Foi quando a possibilidade de um nascimento prematuro começou a se tornar concreta. Li tudo o que pude a respeito, e, ainda assim, nada me preparou para o que eu viveria dali em diante. Preservei algum bom humor e muita esperança, que nos levaram até as 29 semanas de gestação. O resto da história já é conhecido: minha pequena nasceu prematura, e prematuros também eram sua mãe e seu pai. Amadurecemos à força, assim como nossa filha, envoltos pelo sofrimento e pela inabalável vontade de ter nossa família de três. Três vidas renascidas.

Eu e meu marido, dois dias antes do nascimento de nossa filha. Ríamos nervosamente, ríamos para não chorar, ríamos porque, apesar de tudo e acima de tudo, era nossa filha que iria chegar.

Eu e meu marido, dois dias antes do nascimento de nossa filha. Ríamos nervosamente, ríamos para não chorar, ríamos porque, apesar de tudo e acima de tudo, era nossa filha que iria chegar.

 

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