Sala de espera

Sala de espera de neurologista é um caso à parte. Estávamos eu e minha filha aguardando a consulta, uma certa ansiedade nos fazia companhia. Como a secretária disse que haveria demora, acomodei a nós duas em uma das cadeiras, ao lado de uma senhora e sua filha. Na tentativa de relaxar um pouco e dar trégua à expectativa, saquei a mamadeira da bolsa, ajeitei a fraldinha em torno do pescoço da Alice e me pus a alimentá-la. Lá pelas tantas, uns pingos de leite começaram a escorrer de sua boca. Antes que eu fizesse qualquer movimento, a senhora ao meu lado pegou a fraldinha e limpou o queixo da minha filha. Sorri amarelo, sem saber se agradecia ou se estranhava aquela intimidade pretendida, agradeci em voz baixa. Continuei dando a mamadeira, outros pingos de leite insistiram em escorrer e a senhorinha apressadamente acudiu de novo e, mais ainda, resolveu ajeitar o paninho e dar uns tapinhas nas costas da minha pequena sugerindo que ela precisava arrotar. Assim, sem cerimônia, sem apresentações, sem perguntar se podia ajudar, no melhor estilo nunca-te-vi-sempre-te-amei. Pensei em mostrar desaprovação, mas resolvi experimentar o desprendimento. De mais a mais, mães, na maioria das vezes, são empáticas e solidárias sem precisar de explicações. E enquanto eu temia que ela avançasse um pouco mais no contato, o médico a convidou a entrar no consultório. Ufa!
Então chegou uma outra família, pai, mãe e o filho adulto que tinha algum distúrbio neurológico que não consegui identificar. Cadu era o seu nome. Cumprimentei sorrindo, contagiada pela senhorinha que acabara de nos deixar, eles devolveram o sorriso, trocaram meia dúzia de palavras comigo e ficamos todos em silêncio, aguardando. Foi aí que irrompeu uma outra mulher e, com passos curtos, rápidos e certeiros, veio como flecha em minha direção. Segurou a cabeça de minha filha entre as mãos, beijou, beijou, beijou e, enfim, buscou fôlego para perguntar o nome. Eu atônita, o que será isso, respondi sem saber se devia: Alice. Foi a senha para ela emendar que Alice in wonderland foi um dos livros que leu, que tirou 7 na prova de inglês, que seu psicólogo achou que era pouco, que tinha uma irmã chamada Alice, que depois perdeu o livro, que queria rezar uma ave-maria, que achava que os psicólogos erram demais, que ela tinha estudado Letras na PUC. Depois dessa verborragia e antes que eu dissesse qualquer coisa, ela novamente segurou a cabeça de minha filha, exclamou tia Mimi te ama, e saiu em triunfo.
Eu me perguntava se aquilo tinha acontecido mesmo, segurando o riso, a surpresa e a apreensão. Busquei solidariedade com a família ao lado, dizendo à mãe: que coisa, colocar as mãos dessa forma em um bebê! A gente se preocupa tanto em higienizar para minimizar riscos de doenças! O pai, ao ouvir meu comentário, indagou, incrédulo: mas você não a conhece não?! Fiz que não com a cabeça e todos riram em gargalhadas enquanto ele fazia um gesto com as mãos que, digamos, queria dizer que eu tinha me lascado.
Nós nos refazíamos da risada, e tia Mimi voltou gesticulando e proclamando – Alice, Alice -, as mãos prontas para um abraço de amizade eterna. Foi interrompida pela secretária que me disse: é a sua vez! Levantei apressada com minha filha no colo, bolsa caindo pra lá, apetrechos de bebê pra cá, um resquício de riso, mas ainda sobrou tempo para uma piscadela para a família que ficou na companhia da tia Mimi.

(Consultórios de neurologistas, psiquiatras e psicólogos devem contar com um olhar desprovido de julgamento. As fronteiras sociais, muitas vezes ultrapassadas por pessoas tidas “normais”, são ainda mais frágeis em alguns quadros neurológicos, psiquiátricos e psicológicos. É preciso exercitar a compreensão, o respeito e o bom humor. Meu carinho pela tia Mimi, que me tirou do lugar comum, convocou minha tolerância e, de quebra, fez minha espera mais leve, mesmo sem sabê-lo).

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