Tempo rei

Há algum tempo, comecei um esforço desmedido para compreender o universo das lesões neurológicas e suas consequências. Não sou médica, nem profissional da área de saúde, mas me pus a ler tudo o que pudesse esclarecer a condição de minha filha. Estudo sintomas, causas e, principalmente, tratamentos. Todos os dias. Meu maior receio é perder algum tratamento que possa ampliar sua qualidade de vida, seja porque passou do tempo, seja por desconhecimento, seja por falta de recurso. Ao mesmo tempo, há também o medo de uma piora súbita, de uma reinternação, de a medicação não ser eficiente para conter as convulsões.

Recentemente, passamos dois dias na UTI pediátrica por conta de uma bronquiolite. O retorno ao hospital teve efeito terapêutico em nossa família. O sobressalto durou menos tempo. Nossa filha mostrou toda a sua vontade de viver, e rebocou pai e mãe para dar a volta por cima de novo, e quantas vezes forem necessárias. Saímos fortalecidos e confiantes, inclusive para terminar o tratamento em casa, sob nossos cuidados, com fisioterapia, aspiração, medicação, oxigênio, saturímetro, posicionamento e amor, muito e sempre. E vencemos.

Depois de algum tempo, parece que esses aprendizados vão se somando e possibilitando um certo repouso para meu coração de mãe. A familiaridade com os temas da prematuridade e da neurologia nos possibilita não exatamente uma rotina, mas uma dinâmica que incorpora cuidados, terapias e gastos como situações cotidianas, absolutamente ordinárias. O extraordinário agora fica reservado à cumplicidade que prescinde de palavras e até mesmo de gestos. Um olhar ou um movimento sutil de nossa filha é capaz de desencadear nossa mais profunda conexão e compreensão.

Hoje, posso dizer que o amor, a gratidão e a esperança ocupam toda a nossa casa, para os medos sobrou apenas o quarto dos fundos. Ainda há muito para caminhar, para aprender, afinal somos uma família esforçada em início de carreira. Mas nossa história é de tanta intensidade que o tempo é que tem que ajustar os ponteiros para acompanhar essa vivência.

E então, hoje, me peguei distraída cantarolando, enquanto andava pelo corredor da empresa em que trabalho. Uma leveza arejou meu corpo e estendeu as dores no varal de um discreto sorriso. Não foi um decreto que mudou meu estado de espírito. Sinto as angústias se acalmando pouco a pouco, na medida do meu amadurecimento e da minha compreensão dos desafios e das alegrias de ser mãe de uma filha especial. “Eu sei, serei feliz de novo, meu povo…”, cantei. Eu sou feliz de novo.

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